21 de agosto de 2009

LIVRO III- Capítulo 15

Capítulo 15- Adeus

Assim que o casamento e a festa do mesmo acabaram, Packet e eu fomos para o nosso quarto. Ela ainda com o vestido de noiva pensaria provavelmente que teríamos nossa noite de núpcias. Infelizmente, havia uma surpresa. Tinha medo de que com essa surpresa viesse o divórcio.

-Me carrega!- disse Packet.

-Oi?

-Estamos na frente da porta. Me carrega no colo meu cavalheiro.

-Claro minha dama- disse fazendo uma referência.

E assim, pulando em meus braços, peguei Packet nos meus braços e ela juntou suas mãos e colocou seus braços em meu pescoço e apoiou sua cabeça em meu peito. Medo de cair, imagino.

-E agora?- perguntei.

-Como assim?

-Alguém tem que abrir a porta!

-Calma...

-Espere que já resolvo o problema...

-Não!- Packet me interrompeu- essa é a minha naturalidade.

-Está bem. Duvido que você consiga abrir a porta sem cair. A chave está no meu bolso.

Claro que Packet não conseguiu. Assim que tirou a primeira mão ela já estava em pé novamente.

-Te odeio!

-Eu sei.

-Me de a chave!

Coloquei as mãos no bolso e entreguei para Packet. A mesma abriu a porta do quarto.

-Agora me carrega de novo.

-Como?

-Vai logo!

-Nossa você é muito pesada.

Nem precisei falar que levei um tapa por isso. Mas era esse o objetivo que eu queria: irritar Packet.

-Você mereceu.

-Eu sei. Brincadeira de mau gosto.

-Sim. Agora me carrega logo!

Novamente ela pulou em meus braços, segurou suas mãos e colocou seus braços no meu pescoço e a cabeça no peito. Ela parecia uma linda preguiça vestida de noiva naquele momento. Passei a cabeça dela pela porta e já contei os votos de aleluia.

-Que bom!- disse enquanto continuava a andar.

-Ai!- soltou Packet.

Esqueci-me dos pés dela.

-Você vai ver só!

-Acho que não- disse soltando uma pequena risada.

Joguei delicadamente Packet na cama e fiquei por cima dela. Claro que quando encostamos-nos à cama apoiei minhas mãos para não esmagar a mesma com meu peso. Nem preciso dizer duas vezes que começamos a nos beijar.

-Feche a porta.

Porta fechada. Sem se levantar.

Voltamos ao nosso beijo.

-Me ajude a tirar a roupa.

-Já?

-Não tivemos uma excelente primeira vez. Quero que agora seja perfeito.

-Hã...

-Sabia!

-Que foi?- perguntei.

-Você me esconde algo.

-Sim escondo.

-O que então?

-Estava tentando prolongar isso ao máximo.

-Bellks, quero uma resposta sem mais nem menos.

-A verdade?

-Sim, a verdade.

A verdade. Fora essa tantas vezes usada para o bem como para o mal. Para a alegria e para a tristeza. Para a saúde e para a doença. Embora eu soubesse que tudo que eu falaria seria para o bem, com o assunto doentio, a tristeza estava próxima.

-Packet...

-Sim?

-Tenho que ficar.

Nem preciso dizer que Packet se levantou e eu a acompanhei.

-Ficar?

-Sim.

-Por quê?

-Para salvar as pessoas enquanto ainda há tempo.

-Tempo de que?

Expliquei para Packet que assim que saíssemos de lá, uma guerra nuclear começaria, tudo explicações de Rash, o mordomo de Packet. Em dois anos, ou mais ou menos isso, uma guerra atômica começará. Expliquei para ela também todo o meu plano.

-Você pode ir- eu disse.

-Como assim?

-Se quiser pode ir embora. Não quero que você faça este sacrifício. Você pode ter uma vida lá fora. Eu quero que você tenha uma vida lá fora.

-Do que me importa quarenta anos lá fora enquanto posso passar os melhores dois anos da minha vida com você? Entenda que isso é uma escolha minha e não sua. Não obedeço a ordens de homens que não sejam meu pai, e você sabe disso.

-Mas...

-Mas nada! Ficarei.

-Tem certeza?

-Sim. É uma decisão minha.

-Pense novamente.

-Bellks, minha opinião está feita

-E nossa Clara?

Pelo visto, Packet se esqueceu da própria filha, embora esta estivesse nos planos. Começou a chorar nem mais nem menos. Sentei-me ao lado dela na cama e ela começou a chorar em meu peito.

-Tudo por uma causa maior, certo?- disse ela com a voz fraca.

-Sim.

-Quando você pretende fazer?

-Amanhã.

-Tão depressa?

-Sim, amanhã eles têm que ir.

-E o que acontece antes disso?

-Teremos nós e apenas a nós.

-Teremos muito tempo para isso- disse Packet.

-Concordo.

-Nossos filhos então?

-Sim, nossos filhos.

E Packet começou a chorar novamente. A triste realidade jazia em seus olhos molhados. Agora era só esperar. Ela sabia que era por uma causa maior. Queria a felicidade de amigos e filhos e muito mais do que isso: impedir o fim do mundo. Se ela queria ficar era para ser feliz. Se ela queria ficar era para o bem de nossa Clara e seu futuro. Era a decisão dela.

O dia chegou. No dia anterior, brincamos com nossos filhos. Claro que eu passei meu maior tempo com Benjamin, enquanto Packet passou seu maior tempo com Clara. Disse tudo para Clara quando carreguei a mesma em meus braços. Soltei algumas lágrimas enquanto falava, confesso.

-Lembre-se: pai biológico só tem um. Saiba que te amamos, mesmo que o tempo desde amor tenha sido pouco. Te amo minha filha.

E terminei dando-lhe um beijo na testa. Packet e eu tivemos nossa noite de núpcias, embora esta tenha sido bem tarde, quase de manhã. Nem preciso dizer que o fogo era mais intenso do que antes e a paixão também. O dia amanheceu e aproveitamos mais alguns momentos.

-É hoje o dia, certo?- perguntou High durante o almoço. Todos estavam sentados numa mesa redonda.

-Sim, é hoje- eu disse.

Gabriel me olhava meio torto. Parecia que ele sabia o que acontecia com uma pessoa se ela pertencesse ao portal e quisesse sair. Talvez Sky tenha dito alguma coisa.

-A noites vos espera- disse Sky para todos.

Passamos mais tempo com nossos amigos e filhos. Aproveitei e brinquei um pouco com Grace, a menina que eu nunca veria de novo. Na verdade, eu não veria ninguém de novo.

-Você está chorando papai?- perguntou Benjamin.

A visão do pôr-do-sol apenas apertou meu coração. A hora era essa.

-Pessoal, vamos- disse Sky- hora de voltar para casa.

Todos berraram e se abraçaram, exceto Packet e eu, lógico. A felicidade deste fato não nos atingiu.

-Me sigam- disse Sky.

Saímos do hotel e fomos para um grande campo, deserto de flores e árvores, apenas um gramado verde escuro belíssimo. Havia apenas uma coisa neste campo: uma porta amarela com uma maçaneta dourada.

Assim que chegamos perto da porta...

-Parem- eu disse.

Todos obedeceram.

-Temos algo a dizer. Packet e eu.

Assim que disse estas frases, Packet me abraçou e ficou com sua cabeça em meu peito novamente. Todos olharam para nós.

-Diga- disse Juliet.

-Não vamos embora.

-Como?- perguntou High.

-Não vamos- disse Packet já soltando algumas lágrimas.

-Por quê?- perguntoi Stall.

-Tudo é para Benjamin e Clara.

-Explique Bellks! Isso está me matando- disse Juliet.

-Quando alguém que pertence ao portal sai daqui, sem ser autorizada, essa pessoa virão cinzas, ou seja, Benjamin e Clara se tornarão cinzas.

-E a solução para isso?- perguntou Juliet.

Imaginei a larga cela de ferro e a mesma apareceu. Todos estavam presos lá dentro, exceto Packet, Sky, que estava segurando Clara, e eu. Já tinha falado com Sky antes sobre o assunto.

-Está com você?- perguntei.

-Sim- disse Sky.

Dos bolsos de Sky eu vi dois pequenos frascos com um líquido vede dentro. Era o veneno.

-Não façam isso!- disseram as vozes de meus amigos.

Packet e eu pegamos nossos frascos e tiramos a tampa.

-Pai!- gritou Benjamin.

Não poderia ser fraco agora. Não agora. Packet e eu cruzamos nossos braços.

-Ao amor maternal e paternal- disse Packet.

-Sim- eu disse.

E bebemos o veneno. Enquanto o mesmo ardia em nossas veias, que estavam cada vez mais saltadas e roxas, perdíamos nossas vidas. Assim, eu estava deitado ao lado de Packet.

-Não!- gritava Gabriel.

Alguns segundos depois nossos espíritos saíram de nossos corpos, iguais ao modo que morrermos. A cela foi desfeita. Éramos visíveis para todos. Parecia que réplicas nossas foram feitas: tinha dois Bellks e duas Packets. Dois estavam de pé, dois eram apenas corpos no chão.

-Você é um cretino! Olha o que você fez com seu filho!- gritou Juliet.

Ela tentou me estapear, mas não conseguiu. Sua mão atravessou meu rosto. Era a hora da explicação.

-Assim que Bellks e eu nos matamos, demos nossas vidas para Clara e Benjamin. Eu dei minha vida para Clara, enquanto Bellks dava sua vida para Benjamin.

-Oi?- perguntou High.

-Se eles saíssem daqui, eles se tornariam cinzas. Como nosso sacrifício, eles podem sair tranquilamente e ter uma vida.

Os choros foram tantos, mas não podíamos nos consolar nossos amigos, porque não podíamos nos encostar com os mesmos. Talvez esse seria o modo dos espíritos: não poderíamos nos encostar nos humanos.

-Papai! Por quê?- disse meu filho se ajoelhando na minha frente.

-Filho fiz isso para você ter um futuro. Você e sua irmã.

-Meus pais irão ajudar os dois- disse Packet.

-Fizemos uma carta de suicídio que explica tudo. Nos matamos para sermos felizes juntos.

-E Clara?

-Colocamos que Packet já estava grávida, o motivo pelo qual fomos para a casa no campo e ninguém saber.

-E Benjamin?

-Encontramos uma pessoa na cidade que reconheceu uma foto minha. A mesma foto pertenceu à Benjamin e sua mãe lhe dissera que este menino da foto era seu pai.

-E eles simplesmente vão acreditar nisso tudo como?- perguntou Stall.

-Meu corpo e o de Packet são a prova de tudo. Como meu espírito está aqui, meu corpo pode ser levado, sem virar cinzas. Sem dizer quantas coisas em minha casa dever ter meu DNA.

-É melhor vocês irem agora- disse Packet.

-Como?- perguntou Carmen fazendo uma pergunta retórica e olhando para sua filha Grace, que estava em seus braços.

-Fizemos isso pelo futuro de nossos filhos. Você e Gabriel fariam o mesmo.

Carmen ficou em silêncio e Gabriel também. Eles sabiam que aquilo era verdade.

-Nem podemos dar um abraço- sussurrou High.

-Não podemos abrir mais a ferida- disse Packet.

-Sky, entregue Clara para Juliet.

-Levarei Clara para a casa de quem primeiro?

-Acho que dos meus pais. A polícia investigará o caso também. Tudo em seu devido momento- eu disse.

-Adeus meus amigos.

-Adeus Bellks.

-Adeus pessoal.

-Adeus Packet.

A porta amarela se abriu e vimos como estava o mundo lá fora pelo portal: tudo estava congelado.

-Todos de uma vez- eu disse.

-Sim- disseram todos.

-Não se esqueçam do meu corpo e o de Packet. Gabriel? High? Poderiam?

High pegou o meu corpo enquanto Gabriel pegou o corpo de Packet.

-Adeus- disse Packet e eu.

E eles se foram. O mundo agora era apenas eu e Packet. Viveríamos nossos dois anos de modo apaixonante e alegre, usando a minha imaginação e a dela. Como ela era um espírito agora, podia materializar as coisas. Mas a parte final do plano, que ficou oculta, ainda estava para acontecer.

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