18 de setembro de 2009

PRIMEIRO CONTO DE UM LIVRO DE CONTOS

Alguns de vocês sabem que eu já escrevi um livro aqui no blog, certo? Pois é, agora eu busquei fazer um conto, o qual eu pude me aprofundar mais e acho que está melhor do que os livros. Bem, a história é sobre um menino que é deixado por sua mãe num colégio após a morte do pai. Depois de alguns anos, ela volta e pega e pega o menino, já que seu novo marido quer o mesmo. Agora, com dezesseis anos, começa uma disputa entre os dois, que envolverá um cabelo azul, um laxante na cozinha, um veneno, um atropelamento, uma morte e chocolate. Aviso: ele já está completo.



Conto- A mãe que todo menino não queria ter e o filho que nenhuma mãe queria ter


Capítulo 1- Apresentação


Steve Gandle nasceu numa tarde chuvosa na cidade de São Paulo. Sua mãe, a Sra. Gandle era uma mulher alta e loira. Tinha belos olhos azuis e era muito magra. Parecia até uma modelo desnutrida de tão magra. O Sr. Gandle era um homem baixo, ruivo e gordo que gostava de coçar sua barba, grande e ruiva.


O casal morava nos Estados Unidos. Num momento de crise econômica no país, o casal, sem saber uma palavra do nosso português brasileiro, veio para cá. O Sr. Gandle foi logo recebido como um herói numa empresa de cosméticos, pelo fato de ser norte-americano, embora o mesmo vivesse bêbado e vagabundo no seu país de origem. A Sra. Gandle sempre tinha o sonho de ser uma atriz, mas os preconceitos do marido e da sociedade, na época, nunca puderam fazer seu sonho se tornar realidade.


A Sra. Gandle nunca tinha gostado do pequeno Steve. Ela sempre quis uma filha, com cabelos loiros cacheados, olhos azuis brilhantes, uma pele clara como papel, igualzinha a mãe, para usar a mesma como boneca e uma rígida cristã. Quando ela viu aquele menino cheio de sangue, com cabelo moreno liso, algo que tinha puxado do avô de seu pai, provavelmente, e olhos castanhos, ela começou a gritar de ódio.


-Olhe só- disse ingenuamente a enfermeira Clara que soltava um largo sorriso- ela está gritando de tanta felicidade! Ainda quero ter um filho. Quem sabe um dia eu possa.


A vontade da Sra. Gandle de dizer: “Pega! É seu” foi forte, mas o marido não deixaria.


Certas noites, aos oito meses, o pequeno Steve chorava no seu berço amarelo, no quarto de seus pais, pois ele queria o afeto da mãe, algo que ela nunca dava. O leite era comprado e colocado numa mamadeira, para evitar o máximo de contato com o filho. Ela sempre cutucava o marido, na cama, para o mesmo acordar. As palavras que ela cuspia da boca com tal ódio eram sempre as mesmas: “O filho é seu! Vai cuidar dele!”, mas o pequeno Steve não parava de chorar nos braços do Sr.Gandle.


Quando o pequeno Steve tinha apenas dois anos de idade, seu pai o deixou. Não porque ele queria, não. Ele amava o filho, ao contrário da descontrolada e neurótica mãe, e, começou a ter mais responsabilidade graças ao pequeno. Apenas aconteceu uma pequena tragédia: num belo dia, o Sr. Gandle estava dirigindo para o trabalho, como sempre. No caminho da Av. Paulista ele pegou uma maça (que estava embrulhada por papel higiênico) e começou a comer. Quando deu a primeira mordida, o Sr. Gandle engasgou até a morte e causou o maior trânsito. Sua morte foi declarada “A morte da Branca de Neve” por alguns jornais da região.


A Sra. Gandle entrou em total depressão. Sem saber onde deixar o menino, ela o deixou num colégio interno cristão de São Paulo e foi embora para o Rio de Janeiro. O menino foi criado nesse colégio até os seis anos de idade e desde então nunca mais tinha ouvido falar de sua amada mãe, mas tinha uma foto dela num porta-retrato ao lado de sua cama. As freiras e os padres o maltratavam, tendo ele várias cicatrizes pelo corpo, mas ele não ligava muito.


Numa bela manhã, no dia de seu aniversário, um carro vermelho, largo, e quadrado, estacionou na frente da porta do colégio. Ele reconheceu a mulher logo de cara: era sua mãe. Mas a mesma agora estava acompanhada por um homem alto, moreno, com olhos castanhos e um cabelo liso de vaca lambida. Junto do casal que saia do carro de mãos dadas havia duas meninas, gêmeas, ambas loiras com cabelos cacheados e com olhos azuis, ambas com vestidos rosa.


Steve não era bobo e nunca cresceu como tal: ele tinha que ser esperto. A vida no colégio era dura, para ele e para todos os outros meninos. Todos dormiam em quartos separados e não podiam conversar, sendo assim, ele nunca teve uma amizade forte. Mas pelo menos a comida era comestível e da melhor qualidade, uma coisa que ele agradecia a Deus todos os dias.


Sua mãe entrou pelas portas do colégio e reconheceu o filho, mas não mostrou alegria, apenas desprezo e cara de nojo. Steve saiu correndo pelo corredor largo na direção da mãe, com um sorriso estampado no rosto, lágrimas caindo de seu rosto e o cabelo voando de um lado para o outro, mas a mesma desviou rapidamente e Steve, fechando os olhos, acabou abraçando o homem alto e moreno que via ao lado de sua mãe. Quando ele abriu os olhos ele pode ver o erro que tinha cometido.


-Este é o meu filho!- disse o homem olhando para o garoto.


Steve nem podia acreditar. Sua mãe além de ser mau caráter como uma só, ela ainda tinha traído o pai dele, ou melhor, o Sr. Gandle.


Tudo fora explicado: A mãe de Steve teve um caso com o Sr. Robinson Pereira, já que ele era o único que sabia falar inglês naquela bela tarde de Carnaval no Rio de Janeiro, mas nunca mais tinha visto o mesmo. Anos depois da morte do Sr. Gandle, eles se reencontraram num bar do Rio, se casaram e logo tiveram as gêmeas, Beatriz e Luciana, que tinham agora três anos. Elas tinham nascido quatro dias antes do aniversário do pequeno Steve. Agora a mãe de Steve sabia o básico do português, mas falava com o mesmo sotaque.


-Então você é meu pai?- perguntou o pequeno Steve com uma voz aguda e desafinada.


-Sim, mas sua mãe sempre o escondeu de mim Steve. Assim que descobri, peguei o carro e vim direto para São Paulo! Meu filho! Você não acredita como estou feliz- disse Robinson com lágrimas nos seus olhos e os olhos brilhando como diamantes.


-Vocês moram no Rio?- perguntou um menino com tom de desprezo.


-Sim- disse Robinson- moramos numa bela casa branca, perto da praia. Vale uma fortuna! Você vai adorar!


-Ah- disse o menino com tom desanimador.


-Que foi?- perguntou Robinson sabendo que o filho estava desanimado.


-Eu sempre gostei de São Paulo. Eu e os garotos andamos pelas ruas junto com os padres e as freiras, mas sempre temos que ficar calados. Não gostaria de me livrar desses paseios.


Para conseguir o afeto da criança, Robinson não pensou duas vezes: pegou sua casa do Rio de Janeiro, vendeu, e comprou uma linda casa em São Paulo. A casa era branca, tinha dois andares, uma cerca de ferro que cercava a frente da casa, um jardim verde, na frente, de dar orgulho, e, um jardim atrás da casa, sem grama alguma, apenas uma espaço livre. Era mais um tipo de “área de lazer”, que foi usada pelo pai e pelo filho para jogarem futebol, guerras de bexiga e qualquer esporte imaginável.


O “novo” pai de Steve, o Sr. Robinson, era um homem muito rico. Era o dono de uma das fábricas de roupa mais famosas do Rio de Janeiro. Se mudando para São Paulo, ele pensou em investir no seu comércio e construiu uma fábrica em São Paulo também. O homem ficou mais rico do que já era e quadriplicou sua fortuna.


A mãe de Steve começou a odiar o menino mais ainda, pelo mesmo ter causado a volta dela para São Paulo, sem falar nas gêmeas que odiaram a idéia de se mudar da bela casa que chamavam de “castelo”. A única pessoa que Steve gostava na casa era o pai e foi com o mesmo que conseguiu construir uma infância melhor.


Mas Steve sabia: sua mãe, Isabele, ainda o odiava.


Capítulo 2- Adolescência


O despertador começou a tocar. Steve estava deitado na cama vestindo uma samba-canção cinza. Era uma segunda-feira: o pior dia de qualquer adolescente no final da década de 90. Afinal, era o primeiro dia de escola.


-Acorda menino!- gritou Isabele em plenas sete horas da manhã atrás da porta.


Steve não precisou esperar duas vezes: levantou e colocou o uniforme amarelo de seu colégio e desceu as escadas da casa para chegar à cozinha. Mas agora, Steve Gandle tinha quase quatorze anos de idade. “O ano da adolescência”, como dizia seu pai.


-Filho hoje eu te levo para a escola- disse Robinson entusiasmado com o jornal levantado e escondendo seu rosto. O mesmo estava sentado numa cadeira preta da cozinha branca, lendo o jornal, como sempre- Parece que foi ontem que te levei para a escola pela primeira vez. Agora você vai se formar!


Isabele nunca conversava de verdade com o filho. “Bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”, “feliz aniversário”, “feliz Natal”, “feliz ano novo”, e algumas trocas de palavras, e só. Isabele era uma péssima mãe com Steve e toda a vizinhança sabia disso.


Na verdade toda a vizinhança tinha piedade do pobre Steve e de seu pai. A mãe nunca deixara o filho ter um amigo judeu, negro, homossexual, embora ele não soubesse o que seria um homossexual na época que sua mãe disse isso, japonês, pobre, coreano, entre outros. Essa conversa de quem podia ou não ser amigo dele era um segredo dele e da mãe. A mesma prometeu que se ele contasse alguma coisa para o pai, ela o matava. Ele obedeceu a essas regras, até os doze anos, que foi o momento que ele teve um amigo judeu pobre. Pra ela, Steve só poderia ter um amigo cristão, branco e de família respeitável. Casamento após os trinta.


-Pai! Luciana e Beatriz vão junto?- perguntou Steve desanimado.


-Sim. Vamos todos juntos- disse o homem por trás do jornal.


As gêmeas não suportavam o irmão e vice-versa. Elas não tinham nenhuma amiga, apenas a companhia da outra, mas essa tinha sido uma decisão delas: elas não admitiam pessoas desconhecidas como melhores amigas.


Sons de pisadas começaram a surgir na escada e Steve viu as duas gêmeas de onze anos com o mesmo horroroso uniforme amarelo que ele. As duas de mãos dadas, como sempre. Todo o visual encontrado nas meninas, poderia ser encontrado na mãe.


-Você está saindo com aquela menina?- perguntou Beatriz com cara de alguém que tinha acabado de comer algo azedo.


Steve teve vontade de sair voando no pescoço da pequena e cortá-la em pedaços, mas se conteve. Era a hora da verdade. Sabia que seu pai o apoiaria e pouco se importava com sua louca mãe.


-Sim, estou saindo com Cristina, por quê?


-Que menina?- perguntou o pai tirando os olhos do jornal colocando o mesmo em cima da mesa.


-É uma bem pobre, branquela, com cabelo moreno e olhos verdes- disse Luciana se gabando- morena...


-Algum problema?- interrompeu Steve incrédulo- acho morenas mais bonitas do que loiras estúpidas de onze anos.


-Não briguem- disse o Sr.Robinson olhando para os filhos- na verdade estou feliz filho. Quero conhecê-la.


-Não é nada sério ainda pai.


-Mas será um dia algo sério?


-Talvez.


Isabele, que estava lavando os pratos, parou e ficou imóvel assim que Steve falara da menina, mas ninguém tinha reparado. Até aquele momento.


-Querida? Você está bem?


-Sim. Sim. Mas eu e você teremos uma conversinha sobre relacionamento rapaz- disse Isabele apontando uma faca para Steve.


-Vamos senão vamos perder a hora- disse Beatriz.


-Vamos- disse o pai.


O caminho até a escola para Steve foi horrível. Ele teve que ficar entre Beatriz e Luciana no banco de trás do carro, porque as duas queriam ficar perto da janela. Isabele dirigia o carro, algo que adorava fazer e Robinson estava do lado dela no banco da frente.


-Você sabe o caminho filho?


-Sei pai.


-Você sai mais cedo que as suas irmãs hoje. Elas têm natação hoje.


-Eu sei. Tchau pai!


-Tchau filho!


Steve saiu do carro com sua mochila pesada. Antes que Steve pudesse ouvir seu pai falando “filho”, Isabele já tinha disparado pela rua.


Como agora Steve estava mais “adulto”, como dizia seu pai, era hora dele se virar e ir para casa a pé. Mas a escola não era longe de sua casa. Eram cinco minutos de carro e dez minutos andando. “Um exercício”, ele pensava.


Steve entrou na escola e entrou na sua sala de aula. A professora de português ainda não estava na sala, então ele tinha que aproveitar: ele rapidamente foi para o grupo de cadeiras que ficavam encostadas na parede e lá estavam seus amigos: Pedro Bernardo, o melhor amigo de Steve, o “judeu pobre”, como seus amigos brincavam. Pedro era alto, muito parecido com Steve. Eduardo Neves era um menino bronzeado, com uma altura média, e loiro. Do grupo de seus amigos havia apenas duas meninas: Ágata, uma menina com cabelos ruivos e cacheados e a sua branquela, com cabelo moreno e olhos verdes: Cristina.


Cristina não era a menina mais bela da sala, mas também não era a mais feia. Steve se considerava sortudo por ter ela como uma namorada. Ela era sensível, mas durona. Amável, mais rigorosa. Ele gostava dela pelo fato dela não parecer uma menina normal para ele e vice-versa. E na verdade, ela não era pobre, apenas tinha menos dinheiro que Steve, afinal, o mesmo era milionário e o menino mais rico da sala e do bairro.


Logo que eles encostaram deram um selinho rápido antes que algum professor visse. Dentro da escola era totalmente proibido beijar.


-Falei pros meus pais sobre você. Na verdade uma das pestes me delatou.


Todos ficaram surpresos.


-E?- perguntou Cristina com medo. Ela conhecia Isabele apenas de longa distância.


-Meu pai me apoiou, como sempre. É a única pessoa boa naquela casa. As pestes te odeiam...


-Lógico- disse Cristina cuspindo a palavra de sua boca, pois ela conhecia as mesmas- Mas e Isabele?


-Teremos uma conversa- disse Steve- espero estar vivo até lá.


Assim que as aulas acabaram Steve e Cristina ficaram na rua trocando alguns beijos e carinhos. Na verdade, não eram os únicos. Foi impressionante: quando os dois começaram a namorar, vários casais apareceram na escola e a rua ficou conhecida como o “lugar dos namorados”, pois era o único local que eles realmente poderiam se beijar sem nenhum professor ver. Se um professor visse um beijo na escola, era suspensão na hora.


-Tenho que ir para casa- disse Steve.


-Não vá- disse Cristina dando mais um beijo no namorado.


-Tenho que ir. Minha mãe me espera.


-Não sei como você considera aquele monstro como mãe.


-Ela me deu a vida. Pelo menos ganha um ponto.


-E essas cicatrizes?- perguntou Cristina olhando para as cicatrizes dos padres e das freiras.


-É uma bela forma de mostrar a forma de nosso amor.


Os dois começaram a rir e deram um beijo de despedida. A única coisa que Steve podia pensar enquanto andava pela rua era em Cristina. Esse era seu primeiro romance, e por enquanto estava indo ótimo.


Mas ele não se lembrara o que estava esperando por ele: Isabele o esperava, sentada no sofá da sala, calma.


Capítulo 3- Namorada


Assim que você passa pelo jardim e pela cerca da casa de Steve, você sobe uma pequena escada. Dessa pequena escada você chega à porta principal. Assim que Steve abriu a porta de casa ele chegou ao hall que tinha um longo tapete persa preto, um candelabro de cristal no teto, alguns armários e pinturas nas paredes. Virando à esquerda estava à cozinha, virando à direita estava à sala e indo reto estava a uma escada larga que ia para o segundo andar, que era o andar dos quartos.


Assim que você virava para a sala, a primeira coisa que você via era a mesa de madeira e cadeiras feitas do mesmo material, e um candelabro no teto que ficava em cima da mesa. Virando à esquerda e seguindo reto você via o final da sala: uma estante com uma enorme televisão, dois sofás, um verde e um vermelho. Uma janela enorme com cortinas brancas, pinturas e esculturas espalhadas e um pilha de filmes.


Subindo as escadas e virando à esquerda estava o quarto do casal, que era o maior de todos. Era do tamanho da sala e tinha um banheiro enorme, que tinha uma banheira que ocupava a metade do banheiro. E havia uma modesta varanda. Virando à direita estavam os quartos das gêmeas e o quarto de Steve.


O quarto de Steve era o menor da casa, mas ainda tinha um banheiro e uma varanda como todos os outros quartos. Como ele dormia sozinho, o quarto de Steve foi reduzido e o quarto das gêmeas foi ampliado. As mesmas se gabavam disso, mas o quarto mais espaçoso, entre os dois, era de Steve. Afinal, o quarto dele tinha apenas coisas... Dele.


Isabele estava com um vestido branco que adorava usar quando começava a cozinhar. Ela estava agora no sofá verde fumando um cigarro. Na verdade, uma das coisas favoritas de Isabele era cozinhar: era o seu espaço em toda a casa. Embora não tenha conseguido uma vida de atriz, se ela fosse para um restaurante, seria mestre cuca.


-Oi Steve- disse Isabele.


-Oi mãe.


Steve não gostava de chamar Isabele de “mãe”, pois a mesma nunca o tratou como um filho. Mas de uma coisa ele sabia: ela odiava quando ele a chamava de mãe. Era uma verdade inconveniente para ela.


-Vamos para a cozinha- disse Isabele se levantando e arrumando o vestido- me sinto mais confortável lá.


Saindo da sala, já dava para ver os armários da cozinha, o local onde garfos, facas, colheres, entre outros, ficavam. A cozinha era bem larga e tinha um pia enorme que ia de uma parede para outra, fazendo o formato de um “L”. Havia uma pequena mesa branca no meio com cinco, usada todos os dias no café-da-manhã.


-Sente-se- disse Isabele ficando de costas para Steve e de frente para o fogão.


Steve jogou sua mochila no chão e rapidamente Isabele gritou. Seus olhos estavam vermelhos como uma chama queimando.


-PEGUE A MALA SEU CRETINO E LEVE-A PARA O SEU QUARTO!


Steve não ligou muito. Foi para o hall, subiu as escadas e guardou a mochila no seu quarto. O quarto de Steve era arrumado e bagunçado ao mesmo tempo. A cama de casal que ficava no meio do quarto estava arrumada, a escrivaninha que tinha seu laptop também, mas o armário com as roupas dele era uma zona. Deixou a mochila em cima da cama e voltou para a cozinha. Isabele estava preparando o almoço.


-Sente-se menino- disse Isabele com repúdio e ódio.


Steve sentou na cadeira preta da cozinha branca. Isabele não falou com ele cara a cara. Ela ficou de frente para o fogão, com os olhos penetrados na panela que continha o macarrão e ficava mexendo o mesmo com um garfo de metal.


-Você por acaso se lembra do nosso acordo, menino?


-Sim mãe.


As veias de Isabele se sobressaltaram, mas ela continuou calma.


-Essa menina é pobre?


-Não, ela apenas não é milionária como nós. As pessoas que...


-Menino, você pode apenas casar com meninas ricas.


-Claro- disse Steve sarcástico- irei à esquina agora pra procurar uma.


Isabele desgrudou os olhos da panela e se virou para Steve, deixando o garfo que estava mexendo o macarrão na panela.


-Você está gozando de minha cara, menino?- perguntou Isabele colocando as mãos na cintura.


-Não mãe.


Isabele voltou para a panela e continuou mexendo o macarrão.


-Bom mesmo. Bem, quero que você pare de sair com esta menina. Suas irmãs falaram que ela não é uma boa influência.


-Mas você nem a conhece! E essas meninas são ridículas- disse Steve com ódio das irmãzinhas.


-NÃO FALE ASSIM DE SUAS IRMÃS!- gritou Isabele.


Isabele fez uma pequena pausa antes de continuar a falar.


-Bem, não importa. Essa menina não é digna de namorar você.


-Como você não foi digna de ficar casada com o Sr. Gandle?


Embora Steve quisesse há muito tempo soltar esse peso que carregava no lado direito do coração, a hora não era aquela. Isabele virou novamente, com as mãos livres, e deu um tapa na cara de Steve.


-NÃO SE ATREVA BASTARDO! SE NÃO FOSSE MEU CASO COM SEU PAI VOCÊ NÃO TERIA NASCIDO.


Os olhos com as chamas estavam agora faiscando. A cara de Steve estava com uma parte vermelha, no formato de uma mão. O mesmo colocou a mão no rosto, para Isabele pensar que a tapa estivesse doendo como nunca.


-Agora que você está mais velho, é melhor você se preparar.


-Para?


-Você sabe que eu não te suporto e vice-versa e não poderemos conviver assim.


-Eu sei mãe- disse Steve rindo depois de falar a palavra “mãe”.


-Bem, para você saber do que sou capaz, abaixe a cueca agora.


-O que você vai fazer?


Isabele pegou o garfo que estava na panela.


-Não- disse Steve se levantando e colocando a cadeira na sua frente. Isabele colocou o garfo de volta na panela.


-Contarei para o meu pai.


-Conte que eu mato os dois, e você sabe disso. Se ele morrer, você morre. Não tenha dúvida. Eu viveria facilmente sem seu pai.


-E por que não o fez antes?


-Porque no testamento dele, tudo fica para você e matar os dois seria algo muito chamativo. Ainda preciso do dinheiro dele. Mas assim que eu matá-lo, mato você.


Steve não queria a morte do pai, mas poderia agora mesmo lutar contra Isabele e sabia que iria ganhar na força braçal. Poderia pegar uma faca e enfiá-la na garganta da mãe. Mas ele deixaria provas e seria preso. Ainda tinha que pensar em muita coisa.


-Abaixe- disse Isabele.


-Você me pagará por isso- disse Steve.


-Mal posso esperar.


Steve ficou de costas para Isabele e abaixou a calça e a samba-canção.


-Uma bundinha branca- disse Isabele com total prazer e tirando o garfo da panela quente- delícia.


Capítulo 4- Vingança


-E você não vai falar nada para o seu pai?- sussurrou Cristina durante a aula de Química para Steve, que estava na sua frente.


-Não. Isso é entre mim e Isabele. Se eu contar pro meu pai, ele vai querer fugir. Mas Isabele virá atrás de nós.


-Poderiam parar de falar?- perguntou o professor sarcasticamente para Steve e Cristina.


O professor de química era um homem baixo, de quase um metro e meio, se não mais baixo, porém era declarado o professor mais bonito da escola. Loiro, de olho azul e ainda forte? Era uma escolha perfeita para as meninas, se sua altura não atrapalhasse.


-Desculpa professor- disse Cristina.


O professor voltou para a lousa. Depois de cinco minutos, Cristina e Steve voltaram a conversar.


-O que você vai fazer?- perguntou Cristina.


-O que eu já fiz, na verdade- sussurrou Steve.


-O que?- perguntou Cristina curiosa.


-Depois de duas horas do caso na cozinha, fui até a farmácia.


-Pra pegar alguma coisa para queimaduras?


-Claro que não, para me vingar de Isabele.


-Como?


-Se você deixar eu falo- sussurrou Steve.


Os dois fizeram uma pequena pausa. Perceberam que o professor estava de olho neles.


-Pode falar- sussurrou Cristina.


-Você sabe que Isabele vai ao clube para encontrar suas pseudo-amigas-de-clube, certo?


-Sim.


E era verdade. Depois que Isabele chegava com as gêmeas a casa, Isabele as deixava e ia para o clube tomar um pouco de Sol com suas pseudo-amigas-de-clube. Mulheres falsas, que falavam mal de uma amiga quando a mesma estava fora da “Roda da conversa”. Isabele fazia isso em todas as terças-feiras. De vez em quando ela levava suas filhas para o clube, mas nunca levava Steve. Ele ia sozinho com seus amigos.


-Você sabe que ela usa aquela coisa para cobrir os olhos, certo? Para achar que ficou bronzeada do nada. Adoro o fato que ela fica branquela novamente em apenas dois dias. Ela fica muito brava.


-Sim. Ela usa aquela coisa ridícula para ser pega de surpresa: “Nossa, estou bronzeada”- sussurrou Cristina imitando Isabele.


-Bem, vamos dizer que eu comprei o bronzeador mais forte e troquei o líquido do protetor solar pelo bronzeador.


Cristina começou a rir. Imaginar Isabele queimada era a melhor coisa que podia acontecer. Ela ficaria toda dolorida. Mas o professor não estava nem um pouco contente.


-Você tem alguma coisa para compartilhar com todos?- perguntou professor.


-Na verdade sim. Estejam hoje no clube. O resto eu digo depois.


-Você pode falar agora- disse o professor.


-Tudo bem. A mãe de Steve estará queimada. Não percam.


E ninguém da sala perdeu, exceto Steve. Assim que acabou a aula, ele foi para casa e as gêmeas já estavam lá. Isabele já estava no clube. Ele pensava como seria melhor a hora que as gêmeas vissem a mãe do que a hora H.


Assim que o dia estava acabando, o carro de Isabele chegou e tudo tinha acontecido como planejado: não era Isabele que estava dirigindo, mas sim uma de suas pseudo-amigas-de-clube. Isabele estava um pimentão, nem conseguia se mexer direito. Ainda estava usando seu biquíni cor-de-rosa, pois nem a roupa conseguia colocar e estava coberta por uma toalha branca molhada. Assim que ela entrou no hall, as gêmeas tiveram e começaram a gritar.


-Como isso foi acontecer?- perguntou Luciana.


-Não sei filha- disse Isabele dolorida.


-Vamos processar esse protetor solar- disse Beatriz.


-Não precisa filha. Isso pode acontecer em pleno verão. Deixe-me ir para a banheira e me deitar lá. Fiquem aqui em baixo. Obrigada Glória, pode ir para casa agora. Desculpe por tudo.


-Imagina- disse sua pseudo-amiga-de-clube.


Assim que isabele começou a subir as escadas, sozinha, ela observou que no final da mesma estava Steve. Parado. Em pé.


“Vingança”, ele pensou.


Steve deu espaço para Isabele subir as escadas e ir em direção ao banheiro de seu quarto.


-Boa jogada- disse Isabele.


-Obrigado- retribuiu Steve.


Capítulo 5- Jantar


Os amigos de Steve e o próprio estavam sentados numa mesa da escola, conversando durante o recreio.


-Quando foi mesmo?- perguntou Pedro.


-Amanhã fará dois meses- disse Steve.


Isabele ficou uma semana de cama, enrolada em toalhas molhadas. O Sr. Robinson ficou dormindo no sofá a semana inteira. Só depois ela conseguia se mexer.


-E nada?- perguntou Eduardo.


-Não, mas acho que ela está tentando me pegar desprevenido.


-Lógico que está, fique atento- disse Ágata.


-Você tinha que ter visto- disse Cristina- foram os melhores momentos da minha vida! Ela não parava de gritar! Foi tão legal!


-Ainda mais agora que ela está morena- disse Eduardo.


Todos sabiam que Isabele odiava negros. O fato dela estar quase da mesma cor que um, era simplesmente mágico.


-Você pegou pesado- disse Cristina.


-Eu? Parece que eu tenho um tridente do capeta na minha bunda e eu que peguei pesado?


-Mas você a fez passar vexame em público- explicou Ágata- mas foi tão legal! Ela estava em desespero! Que pena que você não estava.


-Não acho que foi ruim. A cara das gêmeas era muito boa. Boa até demais.


-Hoje só vocês estarão em casa?- perguntou Ágata.


-Sim, as meninas estarão na natação e meu pai estará na fábrica. Vocês sabem que ele só volta à noite.


-Sim- disseram todos.


O sinal bateu.


-Pessoal subindo!- disse uma inspetora.


-Será que ela nunca se cansa?- perguntou Christina.


-Acho que não- disse Pedro.


Depois da aula, Steve voltou para casa a pé como sempre. Entrou em casa e viu Isabele, no seu vestido branco que adorava usar quando começava a cozinhar, preparando o almoço. Steve deixou sua mala no seu quarto e voltou para sala para assistir um pouco de televisão. Dormiu no sofá e só acordou de noite. Todos já estavam em casa, até mesmo seu pai. Steve foi para o seu quarto e começou a ler um livro.


-A janta está na mesa- gritou Isabele do andar de baixo.


-O que teremos mãe?- gritou Steve. Se fosse algo ruim, ele continuaria a ler. Estava na parte mais legal do livro.


-Macarrão, seu prato predileto- gritou ela de volta.


Macarrão. Nem foi preciso Isabele falar duas vezes. Steve pulou da cama, deixou o livro em cima da mesma e foi correndo para a cozinha. Seu prato já estava em cima da mesa e todos já sentados ao redor da mesma.


-Depois lave o seu prato- disse Isabele.


Steve comia macarrão como ninguém. Em menos de dois minutos ele dava dez garfadas. Mas então, algo de estranho, que nunca tinha acontecido antes, começou a acontecer.


-Nossa- sussurrou Steve.


-O que foi?- perguntou Robinson.


-Estou com alguma coisa estranha- sussurrou Steve.


-O que foi?- perguntou Isabele.


Até as gêmeas ficaram surpresas por Isabele ter se importado com aquilo.


-Estou com dor de barriga.


-Como assim meu...


Nem foi preciso Robinson dizer mais uma palavra. Steve já tinha corrido escada a cima e foi para o banheiro do seu quarto.


Todos foram atrás para saber o que estava acontecendo.


-Que foi filho?- perguntou Robinson de trás da porta.


-Estou muito mal- disse Steve.


-Você está vomitando?


-Não. O outro.


-A...


E ficou um silêncio. Steve só conseguiu ouvir alguns passos saindo de seu quarto. Mas ele conseguia ouvir uma respiração. Alguém ainda estava lá. Era Isabele.


-O que um laxante não faz, certo menino?


Steve não respondeu, estava sem forças para retrucar. Mas ele estava certo de uma coisa: isso não ficaria barato. E dessa vez, seria a última vez. Mas aquela noite inteira, estava destinada ao banheiro.


Capítulo 6- Cabelo


-Já planejei meu próximo ataque.


Todos estavam no recreio. Num outro dia, como outro qualquer. Todos os amigos de Steve estavam entusiasmados.


-E qual será?- perguntou Pedro.


-Vocês sabem que Isabele está pintando o cabelo, agora que tem cabelos brancos. Tudo bem que meu pai também tem, mas ele não pinta.


-Você vai fazer alguma cosia para ela perder o cabelo?- perguntou Cristina.


-Claro que não- disse Steve- mas seria uma boa idéia. Prefiro mais um vexame em público. Vocês sabem que ela vai naquele salão super famoso no final da minha rua, e, vi que ela tem um horário para hoje à tarde.


-Mas como você vai agir?- perguntou Pedro.


-Eu já agi.


-Como?- perguntou Eduardo.


-Pedi pra recepcionista mudar a tintura do cabelo dela.


-Mas a recepcionista aceitou assim fácil?- perguntou Christina.


-Sim. Falei que Isabele estava fazendo a janta e me pediu para ligar. Sem dizer que aquela recepcionista é meio tapada.


-Meio é elogio- disse Ágata se lembrando da recepcionista.


Todos começaram a rir. O sinal bateu.


-Pessoal! Já bateu o sinal!- gritou a inspetora.


Todos se levantaram das cadeiras e começaram a andar.


-Ágata.


-Que foi Cristina?


-Acho que estou com vontade de ir ao salão hoje.


-Concordo.


-Não- interrompeu Steve- nenhuma pessoa que seja meu amigo pode estar lá. Ela irá estranhar.


-Deixa- suplicou Cristina.


-Não.


-Sem graça.


O dia foi como outro. Steve voltou de da escola e foi para o seu quarto fazer a lição de casa. Além disso, terminou de ler o seu livro, o qual achou ótimo, na verdade. Era um livro de terror, no qual um homem mata várias pessoas da cidade de um modo diferente.


Não estava escuro e o carro de Isabele veio acelerado pela garagem, tanto que ela quase bateu na cerca. Ela saiu do carro, abriu a cerca e estacionou. Saiu gritando um monte e entrou. Subiu as escadas e entrou no quarto de Steve.


-Essa foi a gota d’água- disse Isabele.


A mesma estava num vestido amarelo e usava um par de sapatos de plataforma marrons. Só que agora ela não era mais loira. Ela tinha um cabelo azul.


Capítulo 7-Cristina


-Você prometeu não ir ao salão- disse Steve.


-Cumpri minha palavra. Fiquei do lado de fora do salão- disse Cristina.


Todos estavam dentro da sala de aula. Cristina estava sentada no meio da fileira e Steve estava na sua frente. Era aula de História da Arte, a matéria que Steve mais detestava.


-Isso é entre mim e Isabele- disse Steve copiando o conteúdo da lousa.


-Está bem. Mas você tinha que ter visto a reação dela. Foi ótima!


-Imagino.


-Ágata estava comigo.


-Como assim?- perguntou Steve. Ágata estava sentada na sua frente e ouviu a conversa. Na verdade, todos os amigos ouviam a conversa.


-Você acha que eu ia deixá-la sozinha? Claro que não! Não sei do que aquela mulher é capaz de fazer- disse Ágata.


-Tudo bem que vocês ficaram juntas, mas, Ágata- Steve fez uma pequena pausa- você também se arriscou.


-Qualquer coisa eu mato ela.


Todos começaram a rir.


-Qual é a graça?- perguntou a professora.


A professora de artes era uma mulher de idade, baixinha, com cabelos brancos, usava óculos de meia-lua, uma saia bege, uma camisa rosa, um agasalho roxo, um tênis branco e uma meia azul. Ela era bizarra.


-Nenhuma professora- disse ágata.


-A não ser que você tenha cabelo azul- disse Pedro.


O sinal bateu.


-Venha falar comigo Sr. Bernardo.


-Estou ferrado- disse Pedro.


-Boa sorte- disseram todos, exceto Pedro.


-Obrigado.


Todos estavam de pé, guardando o material.


-Você vai ficar na escola?- perguntou Steve.


-Sim, farei um trabalho na biblioteca e depois vou embora.


-te vejo amanhã então.


Eles terminaram a conversa com um beijo e Steve foi para a sua casa, começar um novo livro. Agora era um livro sobre uma menina magra, depressiva, que tinha o sonho de ser modelo, mas nunca conseguia se tornar uma. Ela encontrou a felicidade descobrindo receitas de chocolate e abriu uma fábrica. Ela estava agora podre de rica.


Em seu quarto, Steve ouviu o telefone tocar no hall da casa. Desceu as escadas e foi atender.


Steve estava ouvindo a voz de uma mulher chorando e não conseguia entender nada do que a mesma falava.


-Fala direito!- gritou Steve no telefone.


-Sou eu porra!


-Eu quem?


-Ágata?


-Sim!


-Que foi?


-É Cristina! Ela está no hospital São Bento!


Steve ficou parado por um momento, pensando no que poderia ser. Um acidente tinha acontecido.


-O que foi?- perguntou Steve preocupado e suando.


-Ela foi atropelada.


A ligação caiu.


Steve sabia em qual hospital ela estava e foi correndo para lá. Correndo foi pouco, ele parecia um carro de tão rápido que estava. Chegou ao hospital em cerca de dez minutos. Assim que chegou, encontrou a mãe de Christina, uma mulher alta, morena e branquela, como a filha. A mãe de Cristina estava com os olhos roxos de tanto chorar.


-Cristina está bem?- perguntou Steve.


-Ficará- assegurou a mãe de Christina pegando um lenço para secar uma lágrima- mas ela tem que descansar. Ela está dormindo agora. Coitada. Nem consegue falar direito.


-Alguém viu alguma coisa?


-Não. Ela foi pegar um maldito atalho que eu falo para ela não pegar por ser perigoso. A rua é tão pequena e a calçada menor ainda. Sabia que isso iria acontecer naquela rua. Só não sabia que seria com a minha filha.


-Posso vê-la?


-Claro. É nesse quarto- disse a mãe de Cristina apontando para o quarto 231.


Steve entrou no quarto e viu Cristina com as duas pernas engessadas. Dentro do quarto estava um médico careca, usando um óculos azul e uma roupa normal de médico.


-Ela ficará bem?


-Sim. A batida não causou nada de grave.


-Você poderia nos deixar a sós?


-Claro meu jovem.


E o médico saiu da sala. Steve pegou uma cadeira de plástico e sentou perto da cama de Christina e ficou segurando a mão da namorada. Depois de algum tempo, ele sentiu a mão de Cristina esmagando a sua.


Christina começou a cuspir algumas palavras só que bem baixo e Steve não conseguia ouvir.


-Calma, me deixa chegar mais perto.


A cara de Steve estava ao lado da cara da amada.


-Fale de novo.


-Is...


-Mais uma vez- disse Steve.


-Isa...


Ela nem precisou repetir. Era Isabele.


Capítulo 8- Veneno


-Você enlouqueceu?- perguntou Ágata.


-Não.


-Você quer mesmo matar ela?


-Sim. Não está ficando fácil. Talvez o próximo golpe dela seja também me matar. Ela quase matou Christina!


-Você não pode fazer isso. Você enlouqueceu. Ela é sua mãe!


-Ontem, no hospital, Cristina falou que seria melhor darmos um tempo. Não consigo viver sem ela. Mas viver sem Isabele é a coisa mais fácil que eu poderia fazer e que eu já deveria ter feito.


-Entendemos, mas não é uma coisa meio... Repentina?


-Sim, mas quanto mais rápido eu agir, melhor. Já se passou uma semana desde que Christina esteve no hospital. Agora ela está em sua casa. Graças ao...


-Pare de falar Sr. Gandle- pediu a professora de Geografia.


-Desculpe professora.


-E quando será?


-Hoje. Já está tudo planejado.


-Pegou o veneno com aquele menino?- perguntou Eduardo.


Havia um menino na escola que era estranho. Loiro, cabelo grande que vinha até os ombros e sempre usava grandes óculos pretos para esconder a cara. Ele sempre oferecia veneno para os estudantes, só que ninguém tinha comprado um. Até aquele dia. Até Steve ter toda aquela idéia.


-Ele me assegurou de que assim que ela bebesse o veneno, o mesmo sairia do organismo dela em três horas.


-E o que você fará com o corpo?- perguntou Ágata


-Este é o grand finale. Por isso que a informação da duração é importante.


-Seu sem graça- disse Pedro.


-Sr. Gandle.


-Desculpe professora.


O sinal bateu. Era hora de ir para casa.


Capítulo 9- Telefonema


-Boa tarde Isabele- disse Steve passando pelo hall e indo para a sala. Isabele estava na cozinha, como sempre.


Ela não respondeu.


-As meninas ficaram na escola?


-Sim. Seu pai vai chegar tarde hoje.


Perfeito. Steve foi para a cozinha. Isabele estava varrendo o chão. Agora já tinha pintado o cabelo novamente. Mas o fato de saber que aquele cabelo já foi azul, já deixou Steve com um bom humor.


-O que vamos comer?


-Bife com arroz e feijão.


-E para beber?


-Suco.


Mais do que perfeito! Se fosse água tudo poderia ir por água a baixo.


-O suco já está pronto.


E lá estava: uma jarra de cristal com um suco alaranjado.


Mas como ela sairia da cozinha?


-Vai se trocar! Você não comerá nada com o uniforme!- gritou Isabele.


-Estou indo, calma- disse Steve tentando tranqüilizar o monstro.


Steve foi até o seu quarto e pegou o telefone que tinha em cima da escrivaninha e começou a discar.


-Alô?


-Pedro?


-Quem é?


-Sou eu.


-Isso não ajudou.


-Steve porra!


-Oi cara.


-Olha, liga para cá daqui a pouco e comece a falar com Isabele. Tenho que me trocar e ainda tenho que colocar o veneno sem ela perceber.


-Tudo bem.


-Então...


-Espere cara- disse Pedro.


-Que foi?


-Não estou gostando disso. Isso é assassinato.


-Cara, eu já tenho tudo planejado. E não é um assassinato, é apenas uma peso a menos nas minhas costas.


-Você que diz.


-Não se preocupe. Liga só daqui a pouco que tenho que me trocar.


-VAI LOGO MENINO!- gritou Isabele da cozinha.


-Tenho que ir.


Steve desligou o telefone sem Pedro responder. Ele tinha que pegar uma roupa usada no armário, pois a mesma seria queimada naquele dia. Colocou então uma camisa cinza e uma calça azul.


O telefone tocou.


Capítulo 10- Ainda não acabou


Steve desceu correndo escada abaixo.


-Senhor, eu falei que não tem nenhuma Valéria aqui- falou Isabele no telefone da sala.


Steve chegou à cozinha e a jarra estava na sua frente.


-Beatriz tem sim.


Steve colocou as mãos nos bolsos.


Merda! Merda! Merda!


O veneno estava na outra calça.


Steve não perdeu tempo e saiu correndo de volta o seu quarto.


-PARA COM ISSO, ESTÚPIDO!- berrou Isabele colocando a mão no telefone para o senhor, que na verdade era Pedro, não ouvir o berro.


Steve chegou ao quarto. Colocou a mão no bolso esquerdo na calça do uniforme. Mas o veneno não estava lá.


E agora?


-Luciana está na escola ainda.


Pensa!


-Não senhor. Não quero comprar um aspirador.


Idiota!


Steve colocou a mão no bolso direito. O veneno preto estava lá, num pequeno frasco transparente.


Steve correu escada abaixo novamente com o frasco já aberto na mão.


-De nada senhor. Que foi?


O suco estava ali, na jarra alaranjada. Steve colocou o conteúdo do frasco e girou um pouco o suco com uma colher que estava por perto.


-Adeus senhor.


Steve sentou na cadeira. A comida já estava na mesa e um copo com o suco já estava posto.


Isabele veio do hall.


-Esta deve ter sido a conversa mais estranha que eu tive- falou Isabele para ela mesma.


E sua última, pensou Steve.


Capítulo 11- Martelo


-Tenho que ir ao banheiro.


-Agora não! Senta e come.


-Mas eu preciso.


-Problema.


-Ainda estou passando mal por causa do laxante.


Isabele começou a rir. Na verdade, ela ficou vermelha e roxa de tanto rir. Até colocou a mão na cara para esconder seu rosto.


-Nesse caso pode ir- disse Isabele ainda rindo- mas vá ao banheiro em baixo da escada.


-Está bem- disse Steve.


Steve foi até a sala e abriu a porta do banheiro que ficava em baixo da escada. Acendeu a luz e ficou esperando. Esperando, ele começou a pensar:


Será que aquele menino estava certo? Será que ele é confiável? Será que fará efeito. Será? Será?


Então Steve começou a olhar ao seu redor e viu que o banheiro era menor do que ele achava. Havia uma privada e uma pia. O papel de parede era um verde-claro que parecia uma cobertura de torta de limão.


Torta! Torta! É melhor do que a idéia anterior.


BUM!


Alguma coisa tinha caído. Steve foi até a cozinha. E lá estava Isabele. Ainda viva, mas fraca, deitada no chão. Steve olhou na mesa e viu dois copos com suco de laranja: um era o envenenado e o outro era o que Isabele tinha colocado para ele.


-Mol...


-Cala a boca! Agora é a minha vez de falar!


Steve começou a abrir os armários da cozinha enquanto falava com Isabele.


-Comprei esse veneno na escola. Pensei que era uma farsa, mas não é que o bicho é verdadeiro mesmo?


Steve começou a abrir as gavetas.


-Sabe, nunca considerei você minha mãe. Você nunca me deu atenção e ainda me deixou num orfanato!


Os olhos de Isabele ficaram arregalados.


-Você achou que eu não tinha adivinhado que aquilo era um orfanato? Desculpe-me, mas alguns meninos sumiam do nada e casais chegavam o tempo todo. Mas voltando ao assunto: nos piores momentos desde que eu voltei para sua vida, quem cuidava de mim era meu pai, o qual você escondeu de mim. Aqui está!- exclamou Steve a última frase.


Numa das gavetas dos armários de cima, Steve achou um martelo para amassar carne.


Steve começou a olhar para Isabele. Ele estava de pé, parado. Ela estava no chão, sem falar nada.


-E agora você vem atropelar minha namorada? Não, não- disse Steve mexendo o dedo indicador de um lado para o outro- ela pode não ser a primeira namorada, mas imagine só se for assim com todas?


Isabele tentou mexer a mão, mas não conseguia. O veneno estava fazendo efeito e provavelmente estava acabando o tempo de Steve.


-E para acabar- disse Steve se ajoelhando.


Steve começou a bater com o martelo nos joelhos de Isabele. Ela ainda estava parada. Não conseguia se mexer.


-Sabe o que você vai virar agora?


Isabele começou a chorar de raiva e de dor. Seus olhos vermelhos começaram a secar e ficaram cada vez mais fracos.


-Comida.


E uma última lágrima escorreu dos olhos de Isabele, assim como seu último suspiro.


Capítulo 12- Tortas de chocolate


-Eu consegui!- gritou Steve.


Steve começou a pular na barriga de Isabele com os dois pés.


-Consegui! Consegui! Consegui! Consegui! Consegui!- berrava Steve.


Ding Dong a bruxa já má morreu, já faleceu


Ding Dong a bruxa má morreu!


-Agora vem a parte divertida. Mamãe, você vai ficar peladinha.


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Um carro começou a vir da rua. Era o pai de Steve, com as duas meninas no banco de trás.


-Não sei por que sua mãe não foi pegar vocês na escola hoje- disse o Sr. Robinson saindo do carro e abrindo a cerca.


Steve podia ouvir tudo. Ele estava parado de pé. No hall. Apenas esperando.


-Não se preocupe pai. Só ficamos na escola por décadas- disse sarcasticamente Luciana.


-Vou matar ela!- gritou Beatriz.


Steve soltou um riso e a porta da casa abriu.


-Por acaso vocês viram Isabele?- perguntou Steve.


-Ela não está em casa?- perguntou o Sr. Robinson.


-Ela saiu e não voltou até agora.


-Mas o carro dela está ai- disse Luciana.


-Ela foi a pé- explicou Steve.


-Você sabe aonde ela foi?- perguntou Beatriz.


-Não faço idéia.


-Filho, porque você está com farinha na cara?


-Bem... –disse Steve se agachando par ficar cara a cara com as irmãzinhas- vão para a cozinha que vocês verão o porquê.


Todos ficaram parados.


-Vai logo!- disse Steve entusiasmado.


Todos foram para a cozinha andando lentamente.


-Nossa!- disseram as gêmeas ao mesmo tempo.


Em cima da mesa estava uma torta circular enorme com cobertura de chocolate.


-Como não tinha nada para fazer, pensei em fazer uma sobremesa. Mas pelo visto isso será nossa janta, já que Isabele não voltou com a comida.


-O que tem?


-Dentro tem carne e por fora tem chocolate.


As gêmeas fizeram uma cara de quem tinha acabado de comer alguma coisa azeda.


-Está bom! Provem!


Claro que Steve não tinha provado. Mas ele sabia: tinha que colocar muito chocolate, e foi o que ele fez.


Na frente de cada cadeira havia talheres e pratos.


-Filho, está faltando você.


-Não estou com fome. Comi um pouco enquanto fazia.


Todos se sentaram à mesa. O Sr. Robinson serviu primeiro as gêmeas e depois ele.


-Bom apetite!- disse Steve.


Todos colocaram seus pedaços em suas bocas ao mesmo tempo.


-Nossa- disse Luciana com a boca cheia- está muito bom!


-Verdade!- disse Beatriz engolindo seu pedaço.


-Filho?


-Sim pai?


-Por que você não usou a carne para fazer a janta? De onde você tirou essa carne?


Steve parou, mas respondeu rapidamente.


-Porque eu queria fazer alguma coisa. Como eu pensei que Isabele traria a janta, não achei nenhum mal fazer uma sobremesa. Então peguei meu dinheiro e fui até o açougue. Voltei e fiz à torta.


-De onde você tirou a receita?


-De um livro que eu estava lendo.


-Qual?


-Quero outro pedaço!-disse Beatriz levantando o prato na cara de Robinson.


-Eu também!- disse Luciana levantando o prato.


-Está bem- disse o Sr. Robinson servindo a família.


-Vou para o meu quarto- disse Steve.


-Boa noite filho.


-Boa noite Steve- disseram as gêmeas.


-Boa noite- e depois Steve sussurrou enquanto subia as escadas- Cinderela.


Capítulo 13- Um final feliz


-Ela morreu?- perguntou Christina.


Steve foi visitar Cristina na casa dela. Havia se passado apenas dois dias desde que aconteceu. Steve estava ajoelhado ao lado da cama de Christina. Ela estava com as duas pernas engessadas. Steve estava com os cotovelos apoiados na cama, perto aproximadamente do pescoço de Cristina, e as mãos segurando a cabeça pesada.


-Sim.


-E quais são as novidades?


-A polícia está procurando por ela.


-Nenhuma prova?


-Todas foram queimadas.


-Hum...


-Que foi?


-Você sabe que eu não gostava disso.


-Não se preocupe. Ninguém achará o corpo dela.


-Verdade, não te perguntei o que você fez com o corpo.


-Vamos dizer assim: uma mulher que já se chamou Isabele virou nada mais nada menos do que uma torta de chocolate.


-E quem comeria essa torta?- disse Christina com desgosto.


Steve tirou as mãos que seguravam a cabeça e escondeu o rosto.


-Você não comeu, comeu?


-Claro que não.


-Então quem?- perguntou Christina ansiosa.


-Quem mais?


-As gêmeas?


-Sim! Tomaram do próprio veneno, literalmente. E meu pai.


-E por que você fez isso com ele?


-Eu tinha que acabar com as provas. Era o único jeito.


Os dois começaram a rir. Christina passava suas mãos na face de Steve e ele segurava a outra mão.


-Livres então?


-Livres.


A mãe de Christina bateu na porta e entrou.


-Seu pai está falando para você ir para casa.


-Obrigado.


-De nada querido!- disse a mãe de Cristina fechando a porta.


-Tenho que ir.


-Venha me visitar amanhã.


-Visitarei todo dia.


Os dois se beijaram e Steve deixou a casa de Cristina e indo a pé para a sua casa. A rua estava deserta. Já estava começando a anoitecer e o Sol já estava indo embora, quando ele ouviu.


-Menino!


Steve ignorou.


-Menino!


-Que foi?- perguntou Steve olhando para trás.


Mas então ele viu: não tinha ninguém lá. Não havia nenhuma pessoa ao seu redor.


-Menino!- ouviu Steve de novo.


-Onde você está?


-Aqui!


-Onde?


-Feche os olhos.


-Não.


-Feche! Só assim você poderá me ver.


Steve fechou os olhos devagar e os abriu de novo.


“Como?”, ele pensava.


Perto de uma árvore, a sua frente, estava uma mulher com os dois joelhos tortos, provavelmente por ter batido em alguma coisa, ou alguma coisa ter batido ali. Ela usava um branco que gostava de usar quando cozinhava. Ela ainda estava bela, mas seu cabelo era azul.

-Quer um pouco de torta?- perguntou a mulher.

5 comentários:

Mari disse...

MACABRO
ahsuahs adorei! um toque de Sweeney Todd a crueldade que todo conto precisa ahuahs
muito loco
principalmente o fim

FELIPE G2 disse...

uahauhauah
que bom que você gostou Mary! Obrigado por ter lido! Cueldade é meu toque de especialidade....
=D

v disse...

Posso ser sincero: É INCRIVEL, tem uma mistura de estilo de vida americano protótipo do mundo, com ar de cinema e crueldade que as pessoas aceitam, fazendo assim uma reflexão de o que é crime e o que é moral, MARAVILHOSO, parabéns.
Ha, você já pensou em cinematografar isso?Sabe, eu to com um projeto de curtas (porque que tenho recurso inútil) porem o roteiro é um problema por ser uma coisa muito demorada e eu não tenho tempo, então, se for pensar no assunto entra em contato: lunayleche@hotmail.com ou gui.galerani@hotmail.com, é isso.
.

Juliana Catelli disse...

É verdade que vc é muito burro (a) mesmo.
Pára com essa mania de generalizar as coisas, vc não conhece todos os brasileiros e vc não sabe da vida de todos os brasileiros.
Acho que vc devia refletir sobre isso.

Felipe Guimarães disse...

V, só vi seu recado agora. Sinto. Adoraria ter participado! :/

Juliana, não conheço toda a sociedade brasileira, mas sei de pessoas que conseguem empregos apenas com a lábia. Sei também que certos gringos recebem trabalhos aqui só por terem vindo de fora. Não são a maioria. Isso foi uma crítica as altas empresas que não empregram seus trabalhadores como eles devem.