3 de novembro de 2009

Conto II- Influência do Terror

Capítulo I- Narrador

Normalmente um narrador nunca conversa com seus leitores antes da história, principalmente se este narrador não for personagem da história. Mas eu penso, aqui, sentado em minha cadeira, escrevendo essas palavras, que, um conto escrito não é melhor do que um conto falado. Imagine só caro leitor: uma fogueira na floresta mais escura e assustadora que você já viu na sua vida. Sons vindo das árvores, do vento, das narinas e animais. Agonia cruel essa que pode facilmente nos deixar de olhos abertos e corações pulsantes.

Não pense que só por este conto ser nada mais nada menos do que um conto que sua história não é relevante. Muitas histórias que apareceram neste mundo não são verdadeiras, principalmente quando ocorrem coisas sobrenaturais, ou algo do tipo. Mas saber uma história e incorporar a mesma e se identificar é fundamental.

Um dia desses, conversando com meu amigo Brás, me lembrei de como o terror é simplesmente um horror. Mas ultimamente as coisas estão se tornando tão superficiais, sem aquele gosto de deixar a pessoa sem dormir, o que é a coisa mais divertida para um escritor, mas não para um leitor.

Então eu começo este conto não com “era uma vez”, mas sim com “assistiu outra vez”. Sim caro leitor, os filmes já existem na data desta história. Filmes coloridos, bem feitos, estamos na era da computação! Da tecnologia de ponta! O terror não pode vir de uma mera máquina, pois a mesma pode ser destruída ou jogada fora. O terror vem do psicológico de cada um.

A rotina da família Casmunga era simplesmente normal: havia uma mãe, Dona Rosa, a melhor deputada que este país já conheceu. Seu Augusto era um engenheiro da melhor qualidade. Nesta família tinham três irmãos: o primeiro era a pequena Camila, que tinha apenas oito anos de idade e era inocente como uma só. Rafael, o filho do meio, adorava de jogar futebol, jogando até tarde da noite com seus amigos. E por último e o mais estranho era Edgar.

Neste conto nenhum dos outros personagens é tão importante como o pobre Edgar. Menino tão ingênuo este. Não tinha medo de nada, ou melhor, dizia não ter medo de nada. E era por não ter medo de nada que o seu hobby favorito era ver nada mais nada menos do que assustadores filmes de terror.

Capítulo 2- Contos de papai

-Filho, você está assistindo este filme de novo?- perguntou Seu Augusto.

-Pai, me deixa vai!- disse Edgar deitado no sofá da sala.

-Não gosto disso.

-Vai pra Igreja, vai pai!

-Olha como você fala comigo!- gritou Seu Augusto.

-Pai é só um filme!

-Foi o que eu disse para o meu pai naquele dia. “Era só um livro”- disse seu Augusto imitando sua voz de quando era jovem.

Edgar pegou o controle remoto e parou o filme.

-Que livro? O que aconteceu?

-Quer mesmo saber esta história?

-Sim.

-É de terror. Quer mesmo?

Edgar ficou com cara de paisagem.

Será que ele não me conhece?

-Tudo bem.

Edgar se levantou e deixou seu pai sentar no sofá junto com ele. Seu Augusto tirou o chapéu pontudo e deixou em seu colo.

-Quando eu tinha sua idade...

-Avança pai.

-Esta parte é importante meu filho.

- Vai logo! Quero continuar vendo o filme.

-Viu? Eu era cabeça dura como você...

-E não mudou muito.

-Quer que eu conte a história? Preciso trabalhar e ainda tenho que ir à Igreja!

-Não! Conte!

-Está certo. Eu adorava ler livros de terror. Ainda me lembro do livro com a capa de couro com o título vermelho.

-A Bíblia?

Seu Augusto bateu com seu chapéu na cabeça do filho.

-Estou falando sério!

-Desculpa pai.

-Então, e eu adorava ler antes de dormir. Para dar medo, claro.

-Quem será que faz isso?- perguntou Edgar ironicamente.

-Sim. Você lembra muito minha infância.

-Pai? O filme...

-Sim, sim. Numa noite eu estava lendo o livro As memórias sangrentas de Santa Christina. Um dos livros mais apavorantes que eu já li. Espíritos, demônios, pessoas morrendo. Simplesmente um livro de terror clássico.

Edgar soluçou. De tédio, claro.

-Quando eu ouvi...

-O que?- perguntou Edgar empolgado.

-Vovó me chamando para jantar.

-Ah- disse Edgar.

-Quando todos estavam sentados na mesa, pudemos ouvir uma menina na rua gritando. Todos nos levantamos para ver o que estava acontecendo. Seu avô, medroso como sempre, ficou dentro de casa e olhava pela janela. Meus irmãos, sua avó e eu fomos lá fora. Uma menina estava toda ensangüentada gritando por ajuda. Uma faca estava fincada na barriga dela.

-E...-

-E um caminhoneiro bêbado veio acelerado pela rua escura e a atropelou com toda a força do caminhão.

-Que legal- disse Edgar com tédio novamente.

-Mas essa não é a parte “boa” meu filho. A parte “boa” é que isso tinha acontecido igualzinho no livro.

-E...

-E assim que fomos socorrer, a menina já tinha desaparecido. Ela não estava debaixo do caminhão nem nada do tipo.

-Só?- perguntou Edgar.

-Não. Quando fui dormir na mesma noite, tive vontade de ir ao banheiro. Então eu sai do meu quarto e desci as escadas para ir ao banheiro que era o único da casa. Quando cheguei perto do banheiro eu ouvi a mesma menina.

-E...

-E quando cheguei mais perto eu a tinha visto refletida no espelho.

-Sinistro.

-Sinistro é pouco! Me caguei nas calças, literalmente.. Soltei um berro que até Deus escutou lá do Céu.

-Mas pai, deus não é onipresente?

-E?

-Você não precisa gritar para ele te ouvir.

-Você entendeu meu filho. Na mesma noite seu avô queimou o livro. Fiquei muito deprimido. Mas depois daquele episódio nunca mais vi, li, ouvi algo de terror. Até você ficar com essa mania de assistir coisas de terror.

-Por quê você ficou deprimido naquela noite pai?

-Nunca pude terminar de ler o livro. E estava chegando na melhor parte.

Capítulo 3- Encontrando o passado

-Temos que fazer isso?- perguntou Edgar para sua mãe.

-Sim meu filho. Temos que comprar alguns livros para sua irmã. A escola dela está pedindo um monte este semestre- disse Dona Rosa.

-E por que ela não vai comprar?

-Ela está doente! Tenha um pouco de consideração! Seu irmão vai cuidar dela enquanto eu e você vamos comprar os malditos livros- resmungou Dona Rosa.

-Está bem.

-Você está pronto para irmos?

-Sim.

Edgar foi com sua mãe numa feira de livros que estava tendo numa rua da cidade. Ele aproveitou e pegou um dinheiro que ele tinha juntado secretamente para levar, caso quisesse comprar alguma coisa.

Vai que tem alguma coisa para comprar?

Chegando numa rua ele viu que a feira era igual à mesma feira que seu pai ia toda semana para comprar frutas, só que dessa vez não eram frutas, mas sim, livros. Várias mesas espalhadas com livros em cima de cada uma.

-Vou procurar os livros. Vê se você acha alguma coisa de interessante.

-Tudo bem.

Edgar andou pela feira, mas nada. A maioria dos livros era infantil, assim como seus vendedores.

-Oi baixinho? Você gostaria de algum livro?

-Sou mais alto que o senhor. Não me chame de baixinho só pela minha idade, senhor- respondeu Edgar para um vendedor e continuou andando.

Ser tratado como uma criança já tinha estourado todos os miolos de Edgar. Agora ele não tinha mais nenhuma paciência: ele respondia com a maior boca grande.

E então ele viu: no final da feira havia uma estranha mulher, cheia de rugas, baixinha, com um batom verde claro que poderia ser visto do outro lado da rua (onde estava a mãe de Edgar naquele exato momento, comprando os livros de sua irmã). A mulher estava com um lenço cobrindo a cabeça e o cabelo, mas não a cara, e usava uma saia roxa. Os olhos dela eram azuis penetrantes, tanto que Edgar estava andando na direção dela sem perceber o que estava fazendo. Só quanto voltou a si, ele percebeu que estava na frente dela.

-Você quer alguma coisa jovem rapaz?- perguntou a mulher.

-Só estou olhando- respondeu Edgar olhando para os livros, nunca para a senhora.

-Claro, claro. Fique a vontade.

-Obrigado.

Mas antes que Edgar pudesse olhar nos livros que a mulher estava vendendo, todos em cima de uma mesa retangular de madeira portátil, ela começou a falar.

-O que você está procurando?- perguntou a mulher segurando suas mãos.

-Não sei também.

-Interessante. O que você gosta de ler?

-Eu...

-Não!- interrompeu a mulher erguendo sua mão direita na frente da cara de Edgar- deixe-me adivinhar. Aventura? Uma aventura com duelo de espadas, piratas cruéis e dragões soltando fogo pelas narinas?

-Não- respondeu Edgar curto e grosso- e dragões não soltam fogo pelas narinas, mas sim pela boca.

-Então você é esperto?

-Será que sou?- perguntou Edgar.

-É sim!- exclamou a mulher- um menino esperto assim só pode gostar de uma coisa.

-E isso seria?

-Um romance! Um romance esperto, com um casal de dar inveja, uma traição ainda melhor.

-Não senhora, e não é o que eu busco.

-Um solitário então você é?

-Não sou solitário.

-Claro que não. Vem de uma família grande.

-Como você sabe?

Edgar ficou olhando a pequena mulher e percebeu que a mesma era um pouco corcunda e que não tinha dois dentes na boca.

-Imagino que seja, oras. Amigos?

-Não muitos.

-Namorada?

-Senhora, acho que você não é a pessoa certa para eu conversar sobre isso.

-Certo, me desculpe. E deixe-me perguntar: você tem medo da morte?

Edgar parou e a senhora também. Um olhando nos olhos do outro.

-Não.

-Então é isso: você gosta de terror.

-Gostar eu gosto...

-Mas nunca sentiu medo antes.

-Sim.

-Então eu tenho o livro certo para você. É este aqui.

A senhora colocou o dedo indicador em cima do livro, e Edgar olhou para a mesa que o mesmo estava. E lá estava: o livro com capa de couro com o título vermelho sangue: As memórias sangrentas de Santa Christina.

Os olhos de Edgar brilharam e colocou rapidamente as mãos em seu bolso.

-Quanto você quer?- disse Edgar cuspindo as palavras de sua boca.

-Cinqüenta.

-Tenho vinte.

-Feito!- exclamou a mulher esticando sua mão para pegar o dinheiro- quer uma sacola?

-Não, vou esconder o livro de minha mãe e o saco faria barulho.

-Esperto você, esperto. Até mais menino.

-Até.

Edgar pegou o livro da mesa e colocou no bolso de dentro do seu agasalho.

-Coube?

-Sim.

-Perfeito!

-Obrigado, senhora.

-Não menino- disse a mulher se sentando num banquinho de madeira, mas ainda olhando para Edgar- eu que agradeço.

Capítulo 3- As memórias sangrentas de Santa Christina

-Você quer ver o que aconteceu comigo?- perguntou Santa Christina de dentro do espelho encantado.

-Sim- respondeu a pequena Elizabeth que estava debaixo das cobertas com uma lanterna sendo segurada pela mão direita e o espelho pela mão esquerda.

A pequena Elizabeth, a menina de sete anos, que tinha os cabelos loiros como palha e os olhos azuis como o céu, nunca mais foi a mesma menina depois disso. Santa Christina mostrou para Elizabeth, através do espelho, como foi sua infância.

A casa de Santa Christina ficava no final da rua mais escura da cidade. Embora a casa parecesse grande, ela era na verdade apenas alta. As árvores, os animais, o vento, os suspiros, as badaladas da Igreja e qualquer coisa que fazia barulho durante a noite atormentavam a pequena Christina que tinha apenas sete anos, como a menina Elizabeth. Christina dormia no sótão, junto com seu irmão, João. Seus pais dormiam no único quarto da casa. A única sala da casa servia como cozinha e sala de estar, tendo apenas uma geladeira, um fogão, uma mesa e quatro cadeiras, sem sofá. O único banheiro da casa ficava perto do sótão e fazia barulhos estranhos durante a noite.

-A casa era muito simples. Sem tintura e quase podre e foi chamada várias vezes de mal-assombrada e não é por nada: pessoas já tinham morado lá antes de minha família. Pedro era o nome dele. Pobre senhor. Casado e feliz com sua mulher por apenas um dia. Um dia depois de seu casamento, quando o lindo e feliz casal entrou na casa, algo trágico aconteceu.

Santa Crhistina mostrou o que ocorreu com o casal, tudo de dentro do espelho. Ambos estavam de mãos dadas, indo descer as escadas.

-Espere que eu esqueci meus óculos- disse seu Pedro.

-Claro querido respondeu a mulher dele.

Mas ela não quis esperar e desceu as escadas sozinha. A mulher de Pedro pisou numa madeira podre que estava coberta por um carpete verde musgo horrível. A mulher de Pedro caiu escada abaixo e foi somente com o barulho que Pedro correu, e de cima da escada viu sua mulher morta.

-Que legal- disse Edgar enquanto lia o livro, deitado em sua cama.

- E o que aconteceu depois?- perguntou Elizabeth.

-Ele se matou- disse Christina de dentro do espelho.

-Que horror- disse Elizabeth- como?

-Pediu para um amigo enterrá-lo com a mulher no quintal da casa, enquanto ele ainda estava vivo.

-E eles viveram felizes para sempre?

-Precisamente- disse Santa Christina- felizes para sempre. E foi assim que meu pai conseguiu comprar a casa: ninguém queria comprar. Ele fez uma barganha com o vendedor e assim conseguimos ter nossa primeira casa. Antes disso morávamos em albergues sujos e acabados.

-E você nunca teve um vestido seu?- perguntou Elizabeth.

-Eu não podia ter este luxo. Só compramos a casa porque precisávamos dela. Eu estava com uma doença grave e os albergues não estavam aceitando minha família. Algumas vezes eu ficava na rua, no frio da noite.

-E você adorou a casa?

-Não- disse acidamente Santa Christina- pois como você mesmo disse Elizabeth, os dois pombinhos viveram felizes para sempre e continuaram morando na casa.

-Eles eram fantasmas?- perguntou Elizabeth.

-Isso mesmo!- exclamou Christina batendo palmas- Entenda pequena Elizabeth, na minha época não tinha eletricidade e vela era outro luxo o qual não possuíamos.

-E o que acontecia?- perguntou Elizabeth.

-O casal nos seguia a noite- disse Christina começando a soluçar.

-E?- perguntou a pequena Elizabeth.

-Meu irmão saiu do nosso quarto...

-E?

-E ele caiu escada abaixo. Morreu também- disse Christina começando a chorar.

-Mas por causa da madeira podre?- perguntou Elizabeth.

-Não menina idiota!-gritou Santa Christina.

Elizabeth neste momento reagiu com um susto e um pouco de medo, balançando a lanterna e quase deixando a mesma cair de sua pequena mão.

-Desuculpe- disse Christina- me esqueço que você tem apenas sete anos, apenas fisicamente eu percebo.

-Entenda...

-O que?- perguntou Elizabeth com muita ingenuidade.

-Os espíritos do casal mataram meu irmão.

Elizabeth ficou aterrorizada e seus pêlos do braço ficaram arrepiados. Afinal, falar com um espelho mágico, no qual ela via uma jovem menina morta de sete anos não era algo normal. Principalmente quando ela estava debaixo das cobertas com uma lanterna para não acordar sua irmã, Sara.

-Eu tenho que ir- disse Elizabeth.

-Não vá!- disse Christina.

-Mas eu tenho que...

-Não vá!- gritou Christina nervosa.

-Não grite comigo! Estou indo.

Elizabeth tirou as cobertas, deixando assim Christina ver seu quarto.

Os olhos de Christina ficaram amarelos com um toque de vermelho.

-Você será perseguida menina idiota- disse Christina com a voz mais grossa e nervosa- Agora que eu sei onde você está eu vou te perseguir e vou matar toda a sua família. Só assim sairei deste espelho. Menina idiota! Você me mostrou onde mora! Você é minha vizinha!

-Para! Para!- gritou Elizabeth.

Elizabeth largou o espelho, deixando o mesmo em cima da cama.

-O que foi?- perguntou Sara.

Sara ainda meio zonza olhou para o espelho com o demônio dentro dele.

-Olá Sara!- disse o demônio de Christina- você será a primeira a morrer.

As duas irmãs ficaram gritando no quarto. Os pais chegaram rapidamente, ascenderam a luz e viram o espelho.

-Você morrerá primeiro- disse Christina apontando para a mãe de Elizabeth- e você depois!

A janela do quarto quebrou e os vidros se espalharam, deixando o vento entrar. Os pais de Elizabeth estavam tão perplexos como a irmã Sara e assustados também.

-Eu achei isso naquela casa- disse Elizabeth apontando para a casa do final da rua.

-Eu pego vocês! Todos pegaremos vocês!

E no espelho apareceram todos: seu Pedro, sua mulher e a família de Christina.

-Quebre isso!- gritou a mãe de Elizabeth.

Elizabeth pegou o controle da televisão e começou a bater no espelho. Mas Elizabeth era fraca e não conseguia quebrar o espelho. Christina ficava rindo.

Em pânico, a mãe de Elizabeth pegou o espelho e bateu o mesmo várias vezes na parede. Agora o espelho era apenas alguns fragmentos de vidro. Mas os olhos de Santa Christina estavam formados em todos os fragmentos, dos mais pequenos, que não eram visíveis,até os grandes cacos.

-O que é aquilo?- gritou Sara.

Através da janela, a família Salivan pode ver uma luz vindo da casa deserta do final da rua. Sombras estavam aparecendo nas paredes podres de madeira da casa mal-assombrada. A família Salivan estava amaldiçoada.

-Fraquinho- disse Edgar deitado na cama.

-Filho! Jantar!- gritou o pai de Edgar.

-Já vou pai!

Edgar se levantou e escondeu o livro embaixo de um monte de agasalhos que tinha dentro do seu armário. Quando ele abriu a porta do quarto, a janela abriu e um vento desagradável começou a bater na cara de Edgar.

Edgar estava surpreso, mas não estava com medo e foi até a janela para fechá-la. Mas ele não conseguia. Uma força maior que a dele deixava a janela aberta. E assim, sem ligar para a janela, Edgar desceu as escadas e foi jantar.

Capítulo 4- Complicações

-Mãe, porque você está chorando?

O dia seguinte tinha sido horrível. Edgar teve duas provas das matérias mais difíceis da escola e ainda tinha ido mal numa das provas. Mas assim que ele chegou a sua casa, as coisas apenas pioraram.

Só depois ele percebeu duas malas do lado do lado da porta e sua mãe sentada no sofá.

-Sua tia ficará alguns dias conosco – disse Dona Rosa.

-Qual tia? Eu só tenho quatorze tias do lado da sua família- disse Edgar sarcasticamente.

-A irmã de seu pai, tia Zelda.

-Por quê?

-Porque seu tio Zualdo morreu.

Tio Zualdo era nada mais nada menos do que o marido de tia Zelda. Era o casal mais feio de toda a família de Edgar, tanto do lado do pai como do lado da mãe.

-Onde ela está?

-No seu quarto. Você não se incomodará de dormir na sala, né?

-Farei isso por você mãe- disse Edgar juntando suas duas mãos e com um cara de dó.

Mas era claro que Edgar estava sendo sarcástico e mentiroso com sua querida mamãe. Era ótimo poder dormir na sala! A televisão poderia ser muito bem utilizada para assistir filmes de terror.

-E como ele morreu?- perguntou Edgar.

-Não sei. Sua tia veio chorando e soluçando e não me disse nada- disse Dona Rosa emburrada- Coitada. Bem quando eles estavam planejando ter um filho...

E assim, sons estavam sendo reproduzidos pela escada e assim que Edgar se virou ele viu sua tia Zelda. Ela tinha dentes tortos, ruiva, gorda, baixinha, usava óculos enormes e estava usando um vestido horrível e um batom vermelho sangue. Ela era muito feia, não apenas na visão de Edgar, mas de toda sua família também.

-Ai Rosa!- disse tia Zelda indo na direção de Dona Rosa e se sentando ao lado dela no sofá.

-Calma Zelda!- disse Dona Rosa abraçando a cunhada.

-E nós nem tínhamos três anos de casamento- disse Zelda olhando para o grande anel de noivado.

-Eu sei querida, eu sei.

-Que horas é a janta?- perguntou Zelda soluçando.

-Às oito querida, as oito.

-Que bom, porque estou com muita fome.

-Eu também querida, eu também.

-E ainda tudo foi trágico. A polícia acha que sou uma suspeita!

-Por quê?

-Estávamos apenas os dois na casa. Isso não justifica nada!

-Não acredito! Você está sendo acusada?- disse Dona Rosa que pensava que a polícia não tinha mais do que razão. Tio Zualdo era rico.

-Mas é verdade!- disse tia Zelda

-Não!- disse Dona Rosa incrédula.

-Sim!

-Não!

-Sério!

-Não!

-Aham!

-Edgar, o que vocês está fazendo?

Edgar estava no chão, se rachando de dar risada. Claro que ele não estava rachando, isso é apenas modo de dizer.

-Não ligue para ele Zelda.

-Na verdade, eu riria da situação também- disse Tia Zelda quando parou para pensar no que tinha acabado de acontecer.

-Desculpe tia.

-Imagina querido. Venha cá me dar um beijo.

As gargalhadas acabaram e o monstro estava à solta. Mas o problema era o seguinte: tia Zelda tinha a infame fama de dar um beijo em cada bochecha e depois um na boca.

Edgar se levantou e foi com a maior falta de vontade cumprimentar sua tia: a primeira bochecha, a segunda bochecha e depois... a boca. As salivas de tia Zelda lambuzaram a boca de Edgar. O hálito de alho também não ajudava muito naquela situação.

-É bom te ver querido.

-Você também tia.

A campainha tocou.

-Sou eu mãe- disse Rafael.

-A porta está aberta.

O irmão de Edgar entrou pela porta com a mochila em suas costas. A perua tinha acabado deixá-lo em sua casa.

-Oi tia. Veio nos visitar?- perguntou Rafael ficando em pé ao lado de seu irmão

E tia Zelda voltou a chorar.

-Boa idiota!- disse Edgar.

-Não fale assim com seu irmão!- disse Dona Rosa.

-Venha cá querido. Deixe-me te dar um beijo.

-Só um minuto tia. Vou guardar minha mala no meu quarto.

-Tudo bem querido.

-Safado- sussurrou Edgar.

-Belo batom- disse Rafael.

-Mas então Zelda. O que aconteceu?

-Eu estava de mãos dadas para Zualdo e tinha esquecido meus óculos no quarto. Quando eu fui ver... Quando eu fui ver...

-O que, querida?

-Ele caiu da escada- disse Tia Zelda começando a soluçar e voltando a abraçar Dona Rosa.

A espinha de Edgar congelou, assim como seu cérebro.

Capítulo 5- Os delegados

Edgar só pensou em continuar o livro depois de sua tia sair de casa, o que levou precisamente duas semanas e três dias. Coitado de Edgar. Toda vez que ele olhava para tia Zelda, ele se sentia culpado, com um peso na consciência que ele nunca tinha sentido antes. Afinal, seu pai tinha avisado, não? Mas ele não podia acabar ali, sem saber o resto. Ele queria saber mais. Ele queria saber o final da história, para saber o que aconteceria com ele.

Os capítulos passavam e a única coisa que se lia era sobre a menina Elizabeth crescendo. Seus pais morreram num terrível acidente de trem chique, sendo ambos cortados ao meio e uma faca tinha sido fincada na barriga da mãe de Elizabeth, como seu pai tinha dito. Sara foi acusada de suicídio quando acharam seu corpo no chão, porém Elizabeth sabia a verdade: quando a irmã foi limpar a janela, ela foi empurrada. Como os pais de Elizabeth eram ricos, ela recebeu uma grande herança que valia milhões e milhões de reais. Então ela pensou enquanto lia o jornal.

Preciso comprar uma casa no campo. Um lugar tranqüilo para se morar.

A casa de Elizabeth, já que agora ela tinha dezenove anos, estava vazia. Um colchão, alguns livros, um banheiro e só. Elizabeth não queria correr nenhum risco, como o fogão explodir, o gás vazar, a casa pegar fogo e acabar morrendo enquanto dormia, então ela decidiu sempre comer fora e nunca trabalhar, sobrevivendo assim da herança de seus pais. A casa de Elizabeth não tinha lâmpada alguma. Para conseguir alguma fonte de luz, a jovem Elizabeth tinha uma lanterna que carregava de dia e era usada a noite e iluminava toda a casa.

Então a construção da casa começou e assim que ficou pronta Elizabeth se mudou. A casa era inteira de vidro, pois Elizabeth queria estar em alerta para cada coisa que se aproximasse. Sem falar que a luz que a Lua emitia era prática em certos momentos quando Elizabeth se esquecia de carregar sua lanterna.

Então Edgar começou a ler e um personagem estranho apareceu no livro...

-Posso te ajudar?- perguntou Elizabeth abrindo a porta de vidro.

-Sim senhorita...

-Me chame de Eliza.

-Olá Eliza, sou o xerife da cidade e tenho algumas coisas para te perguntar.

-O que, por exemplo?

-Sobre sua família...

-Estou sendo acusada de alguma coisa?

-Claro que não- disse o xerife quase anão quer era um quarto do tamanho de Eliza.

-Então não temos o que discutir- disse Elizabeth enquanto fechava a porta

-Mas encontramos uma fita...

-Já assisti o vídeo do acidente dos meus pais, se o senhor quer saber- disse Elizabeth com a porta fechada e andando pelo corredor, ignorando o xerife.

-Não de seus pais, mas de sua irmã. Acharam a fita e me pediram para levá-la até a delegacia para te mostrar.

A fita de sua irmã. Elizabeth tinha visto a fita dos pais: os dois simplesmente andaram na direção do trem enquanto o mesmo estava vindo. Mas as feições de seus pais estavam diferentes: os olhos estavam amarelos e eles estavam felizes. Santa Christina tinha os achados e agora Elizabeth poderia ver o que ela fez com sua irmã.

----------------------------------------------------------------------------------

-Vai demorar muito?- perguntou Elizabeth sentada numa cadeira horrível da delegacia da cidade olhando para a televisão e um DVD.

-Não senhora, está aqui.

-Vamos então, tenho muita coisa para fazer.

-Sim senhora- disse o delegado.

O DVD foi colocado e a imagem apareceu. Tudo tinha sido filmado pela câmera do prédio da frente, mas para achar a fita foi praticamente uma odisséia, levando apenas quatro anos. Mas a cena era chocante: Estava de noite e a única coisa que era visto era a irmã de Elizabeth caindo da janela e se encontrando com o chão.

-Poderia voltar, por favor?- pediu Elizabeth.

-Claro senhora.

E Elizabeth viu o vídeo de novo.

-Mais uma vez- disse Elizabeth.

E mais uma vez ela viu o vídeo.

-A última prometo.

E pela última vez ela viu o vídeo.

-O senhor na viu nada na janela?- perguntou Elizabeth.

-Não, você viu?

-Acho que era a toalha se movendo de um lado para o outro no varal.

-Mas não havia toalha na cena do crime, apenas meias.

-Então foram as meias- disse Elizabeth.

-Mas...

-Obrigado pela paciência delegado.

-De nada querida, quer uma carona para casa?

-Não, eu posso ir andando. Ainda está claro.

Elizabeth andou pela estrada de barro e nada lhe aconteceu. Um carro passou por ela numa velocidade nunca vista, mas Elizabeth estava intacta. Alguns homens vieram em sua direção e estava começando a escurecer, mas nada, apenas alguns assobios e “gatinha” sendo espalhados pelo ar.

Idiotas, pensou Elizabeth.

E assim, Elizabeth chegou em sua casa, mas não conseguiu dormir. Ficava olhando para a lanterna e a lanterna para ela. Então, de tanto cansaço, ela dormiu debaixo das cobertas de seu colchão que ficava no chão de seu quarto.

A campainha tocou às nove horas da manhã e Elizabeth já estava acordada.

-Quem é?- perguntou Elizabeth.

-Sou o novo delegado.

-O que aconteceu com o antigo?

-É por isso que eu vim aqui senhorita.

Elizabeth abriu a porta e viu um homem alto, moreno, com peito estufado e braços largos que usava aparelho. O delegado estava usando óculos escuros, já que o dia estava claro e seus olhos azuis eram sensíveis contra a luz.

-O que aconteceu com ele?- perguntou Elizabeth.

-Posso entrar senhorita?

-Não. Apenas me diga- disse Elizabeth.

-Ele foi morto.

Elizabeth não estava surpresa.

-Como?

-Estava cortando a carne e acabou cortando seus pulsos. Achamos que ele tenha cometido suicídio.

-Concordo com os senhores.

-E só vim dizer isso. Então me vou.

-Espere- disse Elizabeth encostando-se no ombro do delegado- o senhor não gostaria de entrar para conversarmos?

-Claro- respondeu o delegado.

Mas a conversa não durou muito. O que Elizabeth queria na verdade era prazer. Ela queria prazer, um beijo, um amor curto, algo que ela poderia esquecer facilmente e depois ir embora.

-Uau!- disse o delegado.

Elizabeth pegou um maço de cigarro e acendeu.

-Você fuma?- perguntou o delegado.

-Não, é uma cenoura, não vê?- disse Elizabeth sarcasticamente- mas não fumo. Comprei ontem quando sai da delegacia.

-Vamos conversar sobre isso.

-Não- disse Elizabeth- eu quero mais.

Claro que Elizabeth estava usando o sexo para calar a boca maldita do delegado. Era um truque fácil. Os homens eram fáceis, pelo menos todos que Elizabeth conhecia. No final mais um “Uau” foi dito.

-Agora você tem que ir- disse Elizabeth.

-Por quê?- perguntou o delegado desconfiado.

-Por que preciso arrumar algumas coisas na minha vida- disse Elizabeth.

-Tudo bem. Não vou discutir. A casa não é minha.

-Bingo!- disse Elizabeth juntando suas mãos- Se troque, pois você vai me dar uma carona.

-Onde a senhora gostaria de ir?- perguntou o delegado.

-Onde eu arranjo gás?- perguntou Elizabeth.

-Eu posso te ajudar- disse o delegado.

-Que bom- disse Elizabeth.

Útil para alguma coisa, ela pensou.

Ela nem teve que pagar. Na verdade ela nem teve que ir comprar o gás. O delegado foi e voltou com um galão cheio.

-Obrigada- disse Elizabeth pegando o galão e dando as costas para o delegado.

-De nada- disse o delegado colocando a mão no bolso- e Elizabeth...

-Sim- disse Elizabeth se virando para olhar para o delegado.

-Quando eu te verei de novo?

-Amanhã. É uma promessa.

O delegado foi embora e Elizabeth preparou tudo. Pegou os explosivos que tinha guardado para uma ocasião igual a que estava prestes a acontecer. Foi até a garagem e pegou a moto que escondia. Se todo mundo soubesse que ela tinha uma moto, todos poderiam reconhecê-la. Tudo estava preparado.

-Adeus casa. Foi bom pelo tempo que durou- disse Elizabeth do lado de fora olhando para a casa em cima de sua moto. Então ela se foi e assim que conseguiu uma boa distância, apertou o botão e sua casa de vidro fez um som explosivo se espalhou em mil pedaços. Um grito saiu de dentro da casa.

-Você não vai me pegar Christina- disse Elizabeth.

E Elizabeth cumpriu a promessa. No dia seguinte o delegado foi até sua casa e encontrou as cinzas de um corpo. Um corpo que Elizabeth tinha roubado no dia que tinha visto o vídeo.

-Sabia!- gritou Edgar.

-O que filho?- perguntou sua mãe.

-Nada mãe.

Nada uma vírgula. Edgar sabia que Christina estava perseguindo Elizabeth e que ela conseguiu encontrar Elizabeth quando ela e o delegado assistiram o vídeo. Agora, Elizabeth tinha que fugir de novo para se esconder de Christina.

-Mãe, você está chorando?

-Não.

-Sim- disse Seu Augusto.

-O que aconteceu?

-Uma casa explodiu no jornal.

-E?

-Essa era a casa de sua tia?

-Qual?

-Elizabeth.

Só então Edgar se lembrou que ele tinha uma tia com o mesmo nome da personagem principal do livro. Mas será que sua tia estava viva? Afinal, Elizabeth causou uma morte forjada. A tia de Edgar não poderia ter feito a mesma coisa?

Capítulo 6- Amores e fugas

Edgar não poderia parar de ler o livro, não agora que estava perto do final. Ele agradecia alguns fatos, como por exemplo, nem seus pais nem seus irmãos foram mortos. Tio Zualdo não fazia diferença na vida de Edgar, mas tia Zelda sim, que agora solteira, visitava a casa dos Camunga de vez em quando e isso deixava Edgar puto. Ele não queria mais saliva dentro de sua boca.

Elizabeth fugiu em sua moto e de sua casa ela foi para outro estado, um estado menor. Invés de construir outra casa de vidro, Elizabeth comprou uma galeria de balé. Era um fato engraçado na verdade: porque Santa Christin se trancava dentro deles? Era um fato que Elizabeth ainda não tinha conhecido.

Mas a galeria de balé era um lugar ótimo para morar: sem escadas, espelhos espalhados e ainda ficava no centro da pequena cidade. Mas ela nunca esperava que um dia aquilo fosse acontecer:

-Não acredito! Isso não pode estar acontecendo.

Mas era verdade: o delegado com que Elizabeth tinha tido seus poucos momentos de prazer estava na cidade. Mas ele não reconheceria Elizabeth, já que agora Elizabeth estava morena e usava lentes de contato, deixando seus olhos castanhos. Mas mesmo assim o delegado, que estava usando seu uniforme e segurando uma mala vermelha, chamou sua atenção.

-Desculpe senhorita...

-Rodilna Casmunga.

Edgar pensou em parar quando leu o sobrenome de sua família, mas decidiu continuar, faltavam poucas páginas. Provavelmente foi nesse momento que o pai de Edgar parou de ler. Mas Edgar não tinha a mesma facilidade que o pai: ele queria saber o fim da história.

-Senhorita Casmunga, reconheço a senhorita de algum lugar, não?

-Acho que não. Sempre morei aqui em toda a minha vida. Autitiba sempre foi a minha cidade.

Mais uma vez Edgar pensou em parar de ler, já que o nome de sua cidade foi dita, embora esta hoje seja uma das cidades mais ricas do país.

-Me desculpe então- disse o delegado.

-Mas, você não gostaria de tomar um café?- perguntou Elizabeth.

-Onde?

-No Café da esquina.

-Claro- disse o delegado.

Nesse momento Edgar olhou pela janela: o Café da Esquina, a loja do Senhor Benedito Eustáquio tinha acendido suas luzes.

-Me fale um pouco de sua vida delegado- disse Elizabeth enquanto os dois estavam sentados tomando café no balcão.

-Não tenho nada para falar na verdade.

-Como não?

-Minha vida mudou um pouco nesses últimos meses.

-Por quê?- perguntou Elizabeth.

O delegado juntou suas mãos, pensativo, mas se rendeu à Elizabeth.

-Eu conheci uma mulher...

-E?

-Me apaixonei por ela.

-Isso é bom!- disse Elizabeth colocando suas mãos nas mãos do delegado.

-Não é não- disse o delegado- é ruim. Apaixonei-me e morri em apenas um dia. Tivemos um dia excelente e de repente a casa dela explodiu.

Claro, porque sempre ouvimos alguém falando de casas explodindo.

-Preciso ir ao banheiro- disse Elizabeth.

-Tudo bem.

Elizabeth foi e quando voltou o delegado não estava mais lá.

-Cadê ele?- perguntou Elizabeth para o barman.

-Lá fora fumando- disse Carlos- mas já está voltando.

Antes mesmo que Elizabeth se virasse o delegado já estava de volta.

-Desculpe.

-Imagina.

-Vamos voltar ao assunto?- perguntou Elizabeth.

-Claro- disse o delegado.

-Você fuma?

-De vez em quando- respondeu o delegado.

Os dois voltaram aos seus assentos e voltaram a conversar.

-E ela estava lá dentro?

-Quase- disse o delegado.

A espinha de Elizabeth congelou.

-Como assim quase?- perguntou Elizabeth indignada.

-Não era o corpo dela. Era o corpo de outra pessoa.

Se não era ela, era o corpo de outra pessoa, pensou Elizabeth.

-E o que você fez?- perguntou Elizabeth.

-O que eu estou fazendo, você quer dizer- disse o delegado.

-Tanto faz- disse Elizabeth.

-Estou tentando achá-la. Além de ela ter sido um grande amor...

-Mas foi só um dia- disse Elizabeth.

-Mas bastou para mim- disse o delegado.

-Continue- disse Elizabeth.

-Ela está sendo meu trabalho. Estou investigando a morte dela e a morte da família.

-Mas ela não morreu...

-Exato. Por que ela se mataria, se já tinha recebido a herança? Ela já tinha uma casa, já tinha tudo. Por que forjar a própria morte?- perguntou o delegado.

-Não sei- disse Elizabeth para disfarçar.

-Também não-disse o delegado.

-Estranho isso, não?- perguntou Elizabeth.

-Estranho é pouco- o delegado disse- a casa explodiu, mas apenas uma coisa ficou intacta.

Elizabeth se congelou psicologicamente, mas tinha que agir naturalmente. Afinal, ela não era Elizabeth. Ela era Rodilna Casmunga.

-O que?- perguntou Elizabeth.

-Um espelho- disse o delegado.

-Posso ver?- pergunto Elizabeth.

-Claro- disse o delegado.

Mas que falta de profissionalismo. Só mesmo neste país.

-Aqui está- disse o delegado tirando o espelho de sua mala vermelha e segurando com sua mão direita.

-Não é o mesmo espelho- sussurrou Elizabeth.

-O que?-perguntou o delegado.

-Nada. É que parece que eu já tinha visto este espelho antes numa loja- disse Elizabeth- posso segurar?

-Claro- disse o delegado.

O delegado entregou o espelho para Elizabeth, mas nada aconteceu. Nem uma imagem, nenhum um grito. Nada.

-Interessante- disse Elizabeth.

-Vou ao banheiro senhorita.

-Estarei esperando- disse Elizabeth.

Assim que o delegado entrou no banheiro Elizabeth começou a ver seu reflexo no espelho. E então ela viu que sua maquiagem estava borrada de decidiu retocar. Elizabeth foi chegando cada vez mais perto do espelho para retocar a maquiagem e então o delegado chegou.

-Voltei.

-Que bom- disse Elizabeth parando de se maquiar e olhando para os olhos do delegado.

-Você quer saber a verdade?- perguntou o delegado.

-Quero- disse Elizabeth.

-Acho que este espelho é amaldiçoado.

-O café de vocês está fresquinho- disse a garçonete- bem amargo para o delgado e docinho para a senhorita.

-Obrigada.

-Obrigado.

A garçonete foi embora e eles começaram a beber.

-O seu está muito amargo?- perguntou o delegado.

-E o seu está muito doce?- perguntou Elizabeth.

-Vamos trocar- disse o delegado.

-Mas poderíamos pegar alguma doença, não? Afinal, já encostamos nossas bocas nas xícaras- perguntou Elizabeth.

-Tem razão senhorita, tem toda razão. Mas até que gostei de meu café. Você sabe qual é a marca?

-Não sei. Carlos até agora não me disse. Estou tentando descobrir há meses.

O café boi bebido e os dois terminaram de começar. Mas antes disso, um homem que estava sentado numa outra cadeira veio até a direção do delegado e de Elizabeth e roubou a mochila vermelha.

-Parado em nome da lei!- gritou o delegado.

Mas e lei nem precisou fazer efeito. Um caminhão de chocolate atropelou o ladrão.

-Meu deus- disse o delegado espantado.

Os dois saíram correndo. Enquanto o delegado analisava o corpo, Elizabeth pegou o espelho que estava dentro da mochila, que foi jogada mais a frente do corpo. Elizabeth abriu a mochila, pegou o espelho e jogou no chão, quebrando-o. Nenhum grito saiu deste espelho. Santa Christina estava ficando mais esperta e sua estratégia estava mudando

-O que você fez?- gritou o delegado do lado do corpo para Elizabeth.

-Merda- sussurrou Elizabeth.

O delegado vinha na direção de Elizabeth.

-Sabia que era você- disse o delegado.

-Como?- sussurrou Elizabeth.

-O jeito que você segou a xícara é o mesmo que jeito que você segurava o cigarro- explicou o delegado.

-Se você quer saber a verdade, temos que fugir.

-Por quê?- perguntou o delegado.

Elizabeth se virou e olhou para o delegado, ficando próxima de sua seu rosto e penetrando seu olhar no dele.

-Delegado...

-Sim...

-Você acredita em Deus?

-Sim- respondeu o delegado.

-Então tenho más notícias: não é ele quem me segue.

-Que bonito, adoro romance dentro de terror. Espere!- disse Edgar pulando de sua cama.

Edgar olhou pela janela. Antes mesmo que ele pudesse fazer alguma coisa, pelo menos gritar socorro ou algo do gênero, o borrão já tinha passado pela rua, criando um vento frio e insuportável: era um caminhão indo na direção de seu destino: um pobre ladrão.

-Tenho que acabar este livro. Rodilna Casmunga?- perguntou Edgar para si.

E assim que ele fez essa pergunta a luz acabou e sua irmã e várias crianças do bairro soltaram gritos, mas a presença de uma forma estranha no quarto de Edgar era mais assustadora.

Capítulo 7- Rodilna Casmuga

-Pai?

-Que foi filho?

-Por acaso existe alguma Rodilna Casmunga na nossa família?

-Por que você quer saber sobre isso filho?

-É que estava vendo uns documentos da família.

-Onde?

-Naquela caixa de lembranças da mamãe.

Edgar estava sentado com seu pai assistindo uma série na televisão.

-Sim, sei quem é.

-Quem é então?- perguntou Edgar com cara de trouxa.

-Era uma prima distante minha. Toda a família foi morta- disse Seu Augusto com um pouco de rancor em sua voz.

-Por quê?

-Não se sabe até hoje, coisas estranhas aconteceram.

-Sei- disse Edgar com uma voz de desgosto.

-Vai saber né filho? Hoje tem tanta coisa acontecendo que nem sabemos o que é verdade e o que não é.

-Mas o que aconteceu com ela?

O pai de Edgar começou a rir do filme que estava passando.

-Essa cena é muito boa. Desculpe, o que você estava falando filho?

-O que aconteceu com ela?

-Ela morreu, se não me engano. Acho que está até enterrada no cemitério da cidade. Nunca parei para pensar sobre isso.

O telefone tocou e o pai de Edgar atendeu. Mas Edgar ainda tinha mais algumas perguntas.

-Pai?

-Mussarela não! Você sabe o que acontece comigo...

-Pai?

-Calma filho. Sim, alface pode.

-Pai?

-Calma Edgar! Sim, estou bem de saúde.

-Cara...

-Olha a boca! Sim, estou usando óculos.

-Desculpa pai.

-Tudo bem filho. Sábado então?

Seu Augusto esperou a resposta que foi rapidamente respondida.

-Tudo bem. Até sábado.

Seu Augusto desligou o telefone.

-Quem era pai?

-O padeiro. Você sabe que somos amigos, não?

-Sim pai, e como ele vai?

-Bem, acabou de ter um filho.

-Que legal. Mas pai, você não sabe como ela morreu?

-Já disse que não filho, mas estranhamente ela pediu para morrer com um anel. Acho que era um anel de casamento.

-Obrigado pai, tenho que subir e acabar meu livro- disse Edgar se levantando e indo na direção de seu quarto.

-Que livro você está lendo?

Edgar parou e pensou. Talvez ficar de boca calada ou falar uma pequena mentira teria sido a melhor coisa que ele poderia ter feito naquele momento.

-Peter Pan.

-Você sabe que primeiro foi lançado como uma peça?

-Sim pai, tem na introdução do livro.

Na verdade, Edgar não sabia disso, mas o jeito que seu pai falou indicou logo de cara que o que ele tinha dito era verdade.

-Então está bem. Boa leitura.

E assim, Edgar andou, subiu as escadas, andou mais um pouco e abriu a porta do seu quarto. Pegou o livro que estava escondido embaixo de suas roupas e abriu na página que estava seu marcador verde-musgo e continuou a ler a história de Elizabeth, que agora ele sabia que não teria um final tão feliz.

Capítulo 8- O final de Elizabeth

A noite estava fria, embora estivesse no verão. As janelas do novo esconderijo de Elizabeth faziam barulhos, que ecoavam pela noite escura. Ao lado de Elizabeth estava seu lindo delegado, ambos formando um belo casal. Mas Elizabeth não estava dormindo. Ela estava acordada, deitada nua no colchão, coberta por lençóis. E foi só neste momento que ela descobriu que o medo não se propaga na escuridão, mas sim quando há pouca intensidade de luz. A veneziana da janela deixava a luz entrar e sair, o que deixava Elizabeth com tamanha aflição, pensando que seria...

-Vá dormir!- sussurrou o delegado.

-Não posso!

-Ela não irá mais nos atormentar.

-Eu sei disso, mas sinto que ela ainda está aqui.

-Como você tem tamanha certeza?

-Apenas sei.

O delegado, tentando ser romântico posicionou seu corpo em cima de Elizabeth.

-Nós destruímos a casa! Ela está queimada!

Sim a casa estava queimada e não poderia mais haver meio de Christina voltar.

-Eu apenas sei.

-Tá bom então.

Alguns minutos se passaram e o ronco do delegado começou a se propagar. Elizabeth ainda estava deitada, colocando a sua cabeça no peito do delegado.

-Ela ainda está aqui. Tenho certeza!

-O que foi isso?- perguntou o delegado.

-O que?- perguntou Elizabeth.

-Essa luz vinda do corredor.

-É ela tenho certeza. Agora não tenho saída.

-Eu vou.

-Não!- disse Elizabeth- é a mim que ela quer. Tome conta da criança.

O bebê do casal estava ao lado de Elizabeth. O pobre menino que nunca tivera um berço, mas ficava em cima de roupas e cobertores para deixá-lo confortado.

-Você cuidará dele?

-Sim.

-Se você não cuidar, eu volto!

-Não diga isso!- disse o delegado- já nos basta uma.

-Quando eu morrer, ela não irá voltar. Nunca mais!

-Eu prometo que vou cuidar de nosso filho.

O casal deu um último beijo apaixonante. Elizabeth abriu a porta do quarto e viu que a luz não vinha do corredor, mas sim do banheiro. E assim abriu a porta do banheiro. Na manhã seguinte, o delegado encontrou sua mulher ainda viva, dormindo no chão, e o seguinte recado no espelho: “Uma porta se abriu e por essa saiu uma criança além de tu Elizabeth”.

-Acabou?- perguntou Edgar.

Edgar estava perplexo.

-Como assim acabou?

Edgar virou a página, mas havia apenas uma folha em branco.

-Como assim?

Edgar pensava: O que eu faço? Acabou? Não, claro que não.

Edgar estava segurando o livro e sentiu suas mãos começarem a pegar fogo e assim soltou o livro em cima da cama.

-Que po...

Letras começaram a surgir do livro das Memórias Sangrentas de Santa Christina, sendo escritas naquele momento.

Caro Edgar, vou ter perseguir até você morrer menino idiota. Você me trouxe de volta! menino você tem seis dias para descobrir como você pode me destruir. Vou te perseguir, te estrangular! Eu quero ver seus olhos arderem de dor! Quero ver você sofrer! Estarei embaixo de sua cama, atrás do armário, embaixo da mesa, debaixo das cobertas. O jogo começa.

A janela do quarto abriu e um riso agudo foi ouvido de dentro do livro. Edgar começou a levitar pelo ar, começando a ser jogado para o teto e para todos os cantos do quarto, batendo braços, pernas e todos os membros de seu corpo.

-Pai! Pai!

Os pais de Edgar vieram correndo quando ouviram a primeira cabeçada de Edgar no teto.

-O que está acontecendo?

-É o livro!

-Que livro?

-As Memórias Sangrentas!

-de Santa Christina. Ela voltou!

-Quem é essa?- perguntou a mãe de Edgar.

-Querida, pegue as crianças e fuja para bem longe. Vou tentar trazer Edgar para baixo- disse o pai de Edgar tentando alcançar o filho que estava em pleno ar.

-Eu vou buscar ajuda- disse o irmão de Edgar que saiu correndo escada abaixo.

-Não!- gritaram Edgar e seu pai.

Mas era tarde de mais: o pequeno irmão de Edgar, Rafael, caiu da escada e assim, o vento, a risada e Edgar voando pelo quarto acabou. Mais uma morte aconteceu. E não seria a última.

Capítulo 9- Mudança

-Querida, vá para um hotel que e de lá não saia! Peça um quarto sem espelhos ou televisões. Você e nossa filha têm que ficar juntas!

-Ele está...

-Está paraplégico eu sei.

Não, o irmão de Edgar não tinha morrido, mas nunca mais poderia andar novamente. Já estava tarde e o dia inteiro foi jogado fora. O pobre Rafael nunca mais poderiam jogar seu futebol.

-Desculpa...

-Não fale comigo Edgar! Sabia que isso iria acontecer! Você só me trouxe desgraça! Esses filmes e esses livros não prestam! Eles nos assombram pelo resto da vida- disse Dona Rosa enquanto pegava os filmes e joagavam para todos ols lados de tana raiva.

-Calma querida...

-Não me fala para ficar calma!

-Mãe, os filmes eram inocentes.

-Não me faça de dar outro tapa na sua cara seu desgraçado! E esse livro? Também era inocente? Espero que toda vez que você olhe para o seu irmão, você saiba o que você fez para ele. Ele nunca saberá que foi você o causador de tudo isso, mas você saberá.

Uma pequena pausa foi feita e a mãe de Edgar tomou fôlego.

-Me deixe ir que sua irmã está no carro.

Dona Rosa não se despediu de ninguém, apenas entrou no carro e acelerou o carro pela rua e depois sumiu.

-Agora temos que concertar isso.

-E como concerta isso?

-Primeiro filho, você tem que me contar o que aconteceu depois que eu parei de ler.

-E onde você parou?

-Não tive coragem de ler a última página.

Edgar contou o resto da história, que não era muito.

-Agora você tem que saber a verdade.

-Que verdade?

-A verdade sobre o seu parente que você conhece por Rodilna Casmunga.

Capítulo 10- Um plano

-Rodilna era sua avó.

-Mas e a minha avó? A sua mãe?

-Sim, mas ela morreu quando eu tinha apenas quatro anos. Por isso não me lembro de nada dela, apenas da mulher que se casou com meu pai, ou seja, quem você chama de vó. Porque você acha que sua tia Zelda é feia? Puxou sua avó até o último fio.

Edgar nunca tinha parado para perceber que seu pai e sua avó não tinham nenhuma semelhança, apenas tia Zelda.

-Então o vovô é o delegado da história?

-Sim, mas como você sabe, ele morreu depois de eu ter me casado com sua mãe.

-Sim, sei disso. Então estamos numa encruzilhada.

-Por quê?

-Porque não temos nenhuma pista- disse Edgar desanimado, enquanto os dois estavam numa lanchonete tomando um copo de café com leite.

-Claro que temos.

-Qual?

-Eu.

Edgar olhou para seu pai. Ele ainda não tinha entendido.

-Eu sei como acabar com tudo.

-Como você se livrou?

-Por isso que não queria sua irmã e sua mãe aqui. O único modo foi fornicar, como meu pai me disse antes que eu pudesse terminar o livro. Um dia ele me viu lendo e tirou o livros de minhas mãos, faltando uma página. Ele não sabia quem tinha escrito nem de onde surgiu, mas ele sabia o final da história. Como eu disse filho: o segredo é fornicar.

-Fornicar?

-Transar filho!

-Ah!- disse Edgar enquanto bebia um pouco.

-Lembre-se que Elizabeth foi perseguida?

-Sim?- disse Edgar, esperando que seu pai continuasse.

-Quando que tudo parou?

-Quando a criança nasceu.

-Exato filho! E cadê a prova? Está bem na sua frente! Então pode relaxar!

-Por quê?

-Você já sabe o que tem que fazer. Por que você acha que eu e sua mãe nos casamos? Porque ela estava grávida. Tínhamos apenas dezoito anos. Seu avô me ajudou muito.

-Então, não foi por amor?

-Filho, neste mundo que vivemos, não existe mais amor, nem pela mulher nem mesmo pela criança, mas aprendi a amar sua mãe e ela aprendeu a me amar e hoje nos amamos. Então, que menina você vai tentar engravidar?

-Nenhuma pai!

-Você vai morrer! Ainda não entendeu? Termine seu leite e vamos.

-Para onde?

-Para sua escola! O sinal já vai bater e temos que achar uma menina para você.

-Pai, como vou conseguir que uma menina me ache atraente.

-Mas é claro que você é atraente filho!

-Pai, entenda, pode aparecer um javali que qualquer mãe vai falar “Nossa, como meu filho é bonito”.

-Tudo bem, então qual o seu plano?

-Preciso de roupas.

-Só?

-Pelo menos é uma ajuda. Temos um início, não?

-Sim, sim. Quais você prefere?

-Do que?

-Mina filho!

-Eu sei, mas o que delas?

-O cabelo!

-Ah! As morenas pai! Mas acho que não vou me importar com os cabelos.

-Esse é o espírito.

Capítulo 10- Matilda

-Aquela ali filho!

-Muito despeitada pai!

-Mas ela está gamada em você! Você prefere morrer?

-Prefiro morrer com dignidade do que sem ela! Além disso, ela é feia que da dó.

-Falou o bonito- riu Seu Augusto.

-Olha aquela ali.

-Qual?

-Ali, na escada.

-A ruiva encostada no corrimão?

-Não seu idiota! A que está descendo as escadas.

E então ele viu. A menina tinha olhos escuros no qual qualquer menino poderia se perder bem rápido, como se fosse um labirinto. O cabelo dela era moreno e não era nem liso nem cacheado, mas sim uma mistura dos dois. Era apenas a menina mais famosa do colégio e famosa por uma coisa: sexo.

-É aquela! Pegou a camisinha furada?

-Sim pai!

-Fura mais uma vez com a agulha. Você tem certeza que consegue pegar ela?

-Sim pai.

-Não te quero ver morrer!

-Essa conversa fica para a próxima. Meu cabelo está legal?

-Acho que agora o que você menos tem que se preocupar é com o cabelo.

E assim, nosso herói conseguiu o que queria e conseguiu fornicar com a donzela de cabelos morenos: Matilda.

Capítulo 11- O fim de Matilda

-E como ela está?

-Ela viu no teste: está grávida.

-E como ela não percebeu antes?

-Tem gente que só descobre depois que o bebê nasce! Ela é muito magra pai!

-É verdade. E você foi falar com ela?

-Sim, ela falou que quer ter o bebê.

-Não se preocupe que eu vou te ajudar. Seria injusto meu pai ter feito o mesmo por mim e eu não fazer isso por você. O que importa é que o bebê nasça.

-Valeu pai.

-E a partir de agora?

-Nada de filme de terror.

-Apenas musicais e animações- disse Edgar.

-Por quê?

-Porque são filmes felizes que ampliam seu astral até as alturas.

.

-Isso mesmo! Filho me passa o protetor?- disse Seu Augusto. Os dois estavam deitados na areia da praia, tirando umas férias. Apenas os dois. Matilda já estava grávida de três meses.

-Claro pai.

O celular do pai de Edgar tocou. Era o telefone de Matilda.

-Alô.

-Você é o desgraçado que engravidou minha filha?

Edgar cobriu o celular com sua mão.

-Fudeu!

-Que foi?

-É mãe dela!

-Desculpe senhora, mas estou apaixonado pela sua filha e pretendemos ter nosso filho.

-Então esse romance vai acabar, porque ela acabou de perder o bebê e acabou tendo uma hemorragia. Matilda...

Antes mesmo que Edgar pudesse terminar de falar alguma coisa o puxou da areia até o mar e assim entrou nas águas profundas. E embaixo da água viu uma pequena figura vindo em sua direção. Era Santa Christina. E então pela primeira vez Edgar sentiu medo em sua vida. Ele balançava suas pernas e seus braços em desespero.

-Filho!- Edgar podia ainda ouvir Seu Augusto, mas com um som extremamente abafado.

-Edgar. Vamos brincar- disse Santa Christina de baixo d’ água. A menina inocente agora estava abraçando Edgar com extrema força. Edgar nunca tinha sentido medo e agora não queria mais senti-lo.

E assim Edgar foi levado até o fundo do mar.

-Filho!- gritava o pai de Edgar agora dentro da água.

Mas era tarde. Seu Augusto mergulhou, mexia suas pernas e seus braços e chegou até o fundo, mas não agüentava mais e voltou para a superfície para pegar fôlego. Assim que chegou a superfície, sentiu alguma coisa segurando seu pé e assim, foi também para o fundo do mar.

Capítulo 12- A história repete

-Mãe, porque temos que nos mudar?

-Filha- disse Dona Rosa ficando de joelhos para olhar para a filha- essa casa me traz más recordações e ela não ajuda a situação de seu irmão. Precisamos nos mudar para um apartamento. Apenas um andar.

-Mas eu adoro essa casa!

-Eu sei filha. Já foi de despedir de seu quarto?

-Não- respondeu Camila.

-Então vá porque o taxista já está lá fora esperando e o caminhão já está pronto. De um sorriso para ela se lembrar de como você foi feliz aqui.

-Está bem- Camila com um sorriso no rosto.

Dona Rosa olhava para o táxi e via o pequeno Rafael lá dentro, sem vida, sem alma. O menino que queria ser uma atleta, do que quer que fosse agora estava numa cadeira de rodas. Seu marido e seu filho. Os dois perdidos dentro do mar e sem saber de seus corpos, mesmo depois de quatro meses. A vida estava uma merda.

-Vamos filha!

-Tá bom mãe!

Camila vinha correndo escada abaixo.

-Filha, o que você está carregando?

-Achei embaixo de sua cama.

-Quer saber? É seu!

-Sério mãe?

-Sim!

-Obrigada mãe! É o melhor presente do mundo- disse Camila dando pulinhos.

-Vamos?

-Agora sim!

E então, de mãos dadas mãe e filha foram dando passos lentos até o taxi para irem até o novo apartamento, que já estava todo pronto para sua nova família. Dona Rosa, com sua bolsa rosa pendurara sob seu ombro esquerdo e a pequena Camila, que agora estava com um sorriso de alegria: tinha acabado de ganhar um espelho.

Um comentário:

Mari disse...

ushas é isso mesmo minha vida depende disso mas se a menina for feia esquece usauahs
não achei terror acho que foi mais um drama mas muito bem
gostei felipe