27 de março de 2012

HISTÓRIAS CRUZADAS: Cuidado com o que pensar

Alguns ainda não entenderam a minha mensagem


É muito fácil (e clichê) falar que História Cruzadas é um filme racista. Também é muito simples dizer que os personagens são estereótipos. Porém, assim como todo estereótipo possui uma pequena verdade, as pessoas que pensam estar lutando contra o racismo, podem acabar realizando comentários racistas.Estou dizendo isso por uma simples razão: Histórias Cruzadas é um filme bem polêmico.



Vamos falar primeiramente do filme. A história foca-se em quatro mulheres: Eugenia, uma escritora liberal, que escreve numa coluna de limpeza do jornal da cidade de Jackson por ser o único trabalho que consegue; Aibileen e Minny, empregadas domésticas negras que sofrem preconceito diariamente pelas donas de casas, e Hilly, uma mulher conservadora que lidera as mulheres da cidade ao racismo. Porém, tudo muda no momento em que Eugenia e as empregadas domésticas decidem se unir. E assim surge toda a polêmica (do filme e a dos comentários).

Muitos criticaram o filme por motivos (que vejo serem) bestas e racistas. Um dos piores é a do fato de Eugenia, branca, defender as empregadas negras durante o longa (mulher branca luta contra o preconceito que mulheres negras sofrem) e as pessoas pensarem nisso como se fosse um crime ou errado e um clichê da sociedade branca, como se "as negras não possuíssem voz própria para se defender e precisassem da branca como porta-voz". Ridículo! As mulheres negras têm sim voz na história! Provas disso são a criação do livro dos relatos das empregadas da cidade (motivo do título original do filme) e a personagem vivida por Octavia Spencer, Minny. Parece que as pessoas não entendem que eram os anos 1960! O preconceito racial nos EUA, além de desumano e visto como algo "normal" pela sociedade branca, estava em um de seus momentos mais tensos. Um exemplo claro é o que ocorre com o filho de Aibileen. É natural que elas tivessem medo de se expor! Elas não podiam arriscar tudo e sofrer diariamente com o risco de morrer! Elas precisavam pensar também em suas famílias.

Sim, pensar numa personagem como o de Celia Foote é difícil, mas não o de Eugenia. Digo isso porque eu sei pelo que a personagem passou: a empregada doméstica que meus pais contrataram quando eu era pequeno foi e é a minha segunda mãe até hoje. Quando minha mãe não estava por perto foi ela que me criou. Meus pais sempre foram presentes, mas, quando não estavam, era ela que estava lá e ela me ensinou muitas coisas. Ela é uma verdadeira mãe para mim. Hoje é aposentada, mas decidiu aceitar o emprego de vir em casa uma vez por semana para passar roupa. Foi um jeito que encontramos para manter a ligação que temos, ao invés de nunca mais nos encontrar. Em muitos momentos, sim, é apenas a questão do dinheiro, mas em outros, não.

E quanto as atuações do filme, Emma Stone e Octavia Spencer são os pontos mais fortes do filme. O personagem de Aibileen, vivido por Viola Davis, também é forte, ainda mais na cena final, mas a atriz não merecia o Oscar, pelo menos dessa vez (ela deveria ter ganho pela sua atuação em Dúvida). Bryce Dalla Howard e Jessica Chastain convencem muito bem em seus respectivos papéis.

É um bom filme. Mesmo. A maioria das pessoas o criticou por ser o "filme de uma mulher branca que defende as negras". Que pensamento tosco, superficial, antigo e racista! Quer dizer que apenas o homossexual, o oriental, o negro, o branco, o que quer a pessoa seja, pode se defender por ser o que é? Eu não posso lutar pela pela liberação do casamento gay e pelo fim do racismo com os negros por ser branco e hétero? Em certos momentos em que você pensa ser liberal, você não percebe, mas acaba sendo racista. Histórias Cruzadas possui uma história bonita e é um filme bem feito para pensar. Recomendo.

10 de março de 2012

KONY 2012: UMA CONQUISTA MUNDIAL

Mas agora ele é famoso


Muitas pessoas viram nesses últimos dias que a Uganda e o evento Kony 2012 bombaram nas redes sociais, mas poucos sabem realmente sobre o que o assunto se trata e isso não é à toa. Poucas mídias repercutiram o fato, tanto que só recentemente a Rede Globo decidiu divulgá-la e alguns jornais nem ao menos fizeram isso. Então vou explicar um pouco para vocês o que é tudo isso de forma rápida e prática.


Josephy Kony é um rebelde da Uganda, líder do Lord's Resistance Army, que sequestra crianças (usa os meninos para formar um exército e as meninas para serem escravas sexuais), e mutilam amigos e familiares dessas crianças há mais de 20 anos. Kony é o criminoso número 1 da lista de criminosos de guerra mais procurados do mundo. Eis que então, a ONG norte-americana Invisible Children, que trabalha muitos anos contra o líder e sobre a divulgação de seus atos, lançou este vídeo (clique aqui para ver o vídeo completo e legendado) com o seguinte objetivo: tornar Kony famoso.


Eis o motivo do vídeo fazer tanta repercussão nas redes sociais. A tese é a seguinte: ninguém liga para Kony já que ele não é famoso. Então, vamos torná-lo famoso. Para isso, as pessoas estão chamando a atenção das celebridades, que começaram a informar seus seguidores sobre Kony e o projeto da ONG e foi assim que surgiu esse boom sobre o assunto (e no dia 20 de Abril de 2012, várias cidades do mundo vão se manifestar para toda a mídia repercutir o assunto). Eis a sensação de tudo isso: a ONG conseguiu chamar a atenção do público, que quer chamar a atenção da mídia e, vamos dizer assim, "manipular" a divulgação do líder rebelde para pressionar as autoridades mundiais. Uma ideia sincera e genial.


Claro, existem críticas ao projeto. Eu, por exemplo, defendo a ideia de que os EUA não podem intervir sozinhos se houver uma intervenção em Uganda. A guerra do Afeganistão e do Iraque futuramente não vão resultar em nada. Embora Saddam e Bin Laden tenham sido sentenciados, após a saída do exército norte-americano, os terroristas vão tomar o poder (tradução: mais uma guerra que não resolveu muita coisa para a população, apenas para o interesse norte-americano). Creio que, se é para intervir, que seja uma decisão mundial, com um exército formado por vários países (algo como a OTAN faz hoje). Uganda passou de um assunto norte-americano para um assunto global.


O segundo fato e o mais importante é a situação das crianças da Uganda assim que Kony for capturado. As crianças precisam de uma nova educação, tratamentos para amenizar tudo o que ocorreu e oportunidades para crescer (frase clichê, mas que funciona muito bem no momento), como trabalho, comida, educação decente, saneamento básico etc. Além disso, os seguidores de Kony devem ser capturados e seus aliados serem presos e julgados (não adianta fazer tudo isso se há a possibilidade de existir um novo Kony ). Só assim que realmente acontecerá uma revolução e uma mudança na Uganda.


A causa é muito legal e inovadora. Em São Paulo, haverá no dia 20 de Abril (o que é pedido pelo vídeo) uma manifestação na frente do MASP (onde mais seria? Mais informações sobre o evento clique aqui). Acho bacana participar. Eu mesmo estou pensando em ir. Não é uma luta apenas pela África, é uma luta e conquista da própria população global: todos estão se manifestando para que os governos locais se posicionem sobre o assunto. Não há fato mais legal do que o povo controlando os líderes mundiais pela primeira e tomando suas próprias decisões pelo bem global numa região.