25 de setembro de 2017

A CABANA - Religião, Deus e a arte de crer. Mas o filme é bom?

Que cara cri cri papai! 


Me lembro, em 2008, quando minha tia começou a ler um livro chamado A Cabana. Achei a capa muito bonita mas, com 15 anos, a última coisa que eu queria ler era um livro que falasse sobre Deus. Mas então minha outra tia estava lendo. E minha mãe. E minha amiga. E então aconteceu no Brasil o que estava acontecendo nos EUA: o livro se tornou uma febre. Não havia uma pessoa que não estivesse lendo A Cabana. Era visível em todo local uma moça no banco do ônibus lendo o livro, o professor da escola, um cara na livraria, era uma epidemia. Muitos anos se passaram até que, finalmente, o filme foi adaptado para as telas de cinema: praticamente dez anos após seu lançamento em terras norte-americanas, o polêmico filme chegou. E no final das contas: é bom? Ainda é forte após terem se passado dez anos desde que se tornou uma febre?

Antes de mais nada, vamos falar sobre a sinopse para começar o nosso debate: um pai de família começa a questionar sua fé após o desaparecimento de sua filha que, pelo que tudo indica, foi assassinada. Ainda casado e com mais dois filhos para cuidar, Mack é convidado por Deus para comparecer à cabana que resultou no desaparecimento de sua filha. Ao chegar na cabana, Mack passará uma semana com "Papa" (Deus) para encontrar sentido na tragédia que ocorreu com sua filha e que atingiu ele e toda a sua família.

Particularmente eu gosto da discussão e toda a desenvoltura da história sobre a possibilidade de "falar" com Deus. O cinema já nos apresentou essa temática em filmes dramáticos (Deus é brasileiro), nas melhores comédias (Todo Poderoso) e até mesmo em ficção científica (Contato). A Cabana poderia ser outro bom filme sobre a temática, mas peca em pequenas coisas que acabam afetando o resultado final, principalmente em roteiro, atuação e efeitos. Por ser um filme introspectivo, muito acaba nas mãos dos atores e do roteiro para fazer tudo acontecer e convenhamos: Sam Worthington infelizmente não entrega a carga emocional que seu personagem carrega e, sendo o foco do filme, o diretor deveria ter se preocupado mais com isso. Mas o roteiro também não ajuda. Em determinados momentos, principalmente em frases clichês em que pode estar Meryl Streep atuando, não há o que o ator possa fazer com este material. Há alguns momentos também em que a fotografia do filme (bem feita) acaba sendo estragada por efeitos computadorizados que poderiam ter sido completamente descartados. A trilha sonora também é responsável por quebrar o ritmo do filme de forma errônea e sabemos que aqui ela deveria servir principalmente para quebrar a carga dramática que o filme aborda, mas as músicas não foram bem escolhidas e até mesmo alguns efeitos são mais adequados para serem utilizados em filme pastelão da Sessão da Tarde.

A Cabana erra também ao parecer uma obra de "como ser um bom cristão no mundo contemporâneo", quando, na verdade, o tema é capaz de fazer (e às vezes faz) o papel de trazer uma incrível discussão: o que fazer quando conversamos com Deus? O que falar, o que questionar, o que julgar. O filme acerta ao querer discutir uma questão válida para os nossos dias: colocar-se no lugar do outro. Afinal, o que é colocar-se no lugar do outro? Quem somos para julgar alguém? Suas atitudes, seu estilo, sua cor, seu gênero. Deus (interpretado por uma inspirada Octavia Spencer) acaba tendo esse papel. Além de colocar-se no lugar do outro, é importante pensar na ação de "crer", outra coisa abordada no filme: como provar? Como aceitar que aquilo é verdade ou não? Não há, há apenas a crença e aqui não coloco a crença cristã, islâmica, protestante, mas sim o ato de "crer": crer em pessoas, crer no ser humano, no que somos capazes de fazer e se existe algo divino em torno de nós. O que é crer? O que fazer quando paramos de crer inclusive em nós mesmos? Muitas perguntas boas para se fazer e que poderiam ter sido melhores desenvolvidas inclusive para o filme ter maior relevância.

Com a possibilidade de trazer questões que vão além da fé cristã, A Cabana acaba dando muitas voltas em si para acabar em momentos clichês, salvos em instantes valiosos que abrem a discussão do papel de religião, mesmo que de forma rasa. Não há também muito o que fazer em um filme introspectivo se o ator principal e o roteiro não ajudam. Há diversos filmes que abordam a temática e, em uma modesta opinião, aguarde o filme sair na televisão e dê uma chance para o que ele tem a dizer. Mesmo com as falhas, ele pode te tocar de alguma forma. Os momentos de extrema tristeza com certeza possuem a capacidade de tocar, mas poucos são os momentos de reflexão. 

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