16 de outubro de 2017

MISS SAIGON - Faz cada vez mais calor nesta Saigon romantizada

Imagina viver nesse American Dream


Se você conhece um pouco sobre musicais, com certeza deve conhecer sobre o boom do West End durante os anos 1980/1990. Les Miserábles, Cats, O fantasma da Ópera, além de outras tantas produções e revivals, espetáculos grandiosos, muitos deles têm uma particularidade em comum: Cameron Mackintosh. Produtor britânico, Mackintosh é o nome por de trás de diversas produções de espetáculos que são referência até os dias de hoje e que com certeza você já ouviu falar. O fantasma da Ópera continua sendo a produção musical de maior tempo em cartaz na Broadway. Les Miserábles e Cats estão com seus respectivos revivals recentemente em cartaz na avenida. Além deles, o icônico musical que aborda a Guerra do Vietnã, o sacrifício a ser feito e o amor incondicional de um soldado e uma vietnamita, retornou aos palcos do West End e Broadway. Este musical é Miss Saigon.

Depois de colocarem Les Miserábles nos palcos londrinos ao lado de Mackintosh, a dupla Claude-Michel Schonberg e Alain Boubill já tinham em mente qual seria a próxima história que queriam contar. Miss Saigon se inicia durante a guerra do Vietnã, um pouco antes de ocorrer a invasão de Saigon. Chris, um soldado norte-americano, vai acompanhado com os outros soldados para o clube "Dreamland", um bar/prostíbulo que elege a melhor garota da noite como Miss Saigon. Lá, ele encontra Kim, uma garota de 17 anos que perdeu sua família durante a guerra e acaba no "bar" para sobreviver ao período de guerra. Kim e Chris vivem assim uma paixão intensa até que a guerra mudará a vida de ambos como eles nunca poderiam imaginar.

Ao ver Miss Saigon pela primeira vez, parei para pensar: é impressionante como os musicais ópera-rock ou os que são baseados em antigas óperas possuem histórias de amor tão fortes e relacionamentos tão intensos. Aqui ressalto Rent, com o amor intenso entre Roger e Mimi, O fantasma da ópera, que exalta o triângulo amoroso entre Fantasma-Christine-Raoul, Moulin Rouge com Christian e Satine, e agora Miss Saigon. É caloroso assistir ao romance desenvolvido entre Chris e Kim, pois você realmente compra a paixão do casal e de que eles serão eternamente felizes no primeiro ato (e que, ainda no mesmo ato, tudo muda). Ao acabar o segundo ato é quando você percebe o peso da obra e entende o motivo para ser uma das produções de maior tempo em cartaz no West End e da Broadway.

A produção em si é impecável. A cenografia, a iluminação, o elenco, o ensemble (não gosto de chamar de "coro", mas é conhecido como tal), o texto, tudo em Miss Saigon é único. A primeira produção foi um dos maiores musicais de seu tempo - colocando uma réplica de helicóptero no palco - e a nova produção não deixa de ser grandiosa. Infelizmente, são poucos os planos abertos da gravação que permitem ao espectador ver a estrutura cênica do espetáculo por completo (sensação semelhante ao assistir Os Miseráveis). Por outro lado, é perceptível ver que essa foi a intenção do diretor Laurence Connor desde o início: fazer o espetáculo parecer uma obra cinematográfica, seja pela dinâmica em cena, o foco maior na atuação do que na performance vocal e pela própria cenografia, algo que o diretor mesmo já tinha desempenhado ao criar o espetáculo de 25 anos de O fantasma da Ópera.     

O elenco da produção do revival do West End é impecável. Se comparar com a produção original, assim como a produção de Manila, é indescritível como todos os atores desempenham seus papéis nesta produção de 2014 de forma excelente. Se a intenção do diretor era de arrancar o melhor da atuação de cada um, Eva Noblezada honra o papel de Kim, originado por Lea Salonga (conhecida como a voz de Jasmine, na animação de Aladdin, e a voz de Mulan na animação de mesmo nome) e a torna ainda mais visceral. Alistair Brammer talvez não seja um dos pontos altos da produção, mas mesmo assim entrega um Chris convincente e apresenta técnica vocal para seu papel, algo que poucos Chris conseguem desempenhar em cena. Cabe aqui os destaques para Jon Jon Briones, excelente e cativante como o Engenheiro, Rachelle Ann Go como Gigi, e Kwang-Ho Hong como Thung. O ensemble é um dos melhores das produções que já assisti de espetáculo gravados, se não o melhor.

E, como eu disse anteriormente, a primeira produção do musical já trouxe muita discussão e controvérsias quando surgiu, e a segunda adaptação aos palcos não foi diferente. O espetáculo de 1989 recebeu diversas críticas pelo fato de um dos protagonistas do show, o ator britânico Jonathan Price, e um dos atores mirins, Keith Burns, não terem descendência asiática e usarem maquiagem para aparentarem ser. Na época houve boicote ao espetáculo por parte da população asiática e muitas associações criticaram a produção. Conclusão: hoje Miss Saigon é um dos espetáculos do teatro musical que mais contrata atores asiáticos no mundo. Embora as coisas tenham se resolvido para a primeira produção, a nova produção trouxe mais uma controvérsia e dessa vez nada relacionada ao elenco, mas sim ao seu material: as letras mudaram, novas canções foram adicionadas e arranjos alterados. Fãs de longa data não ficaram felizes com o que foi feito. Eu, por outro lado, nunca tinha visto ou ouvido as canções de Miss Saigon (apenas algumas das versões brasileiras) e, sinceramente, achei até melhor as novas versões criadas pela dupla do que algumas do material original.

Ouça, veja e se delicie com a história de amor de Chris e Kim e com a história incrível que há em Miss Saigon. Se emocione. Infelizmente eu não assisti ao espetáculo quando ele esteve no Brasil, estrelado por Lissah Martins, como Kim, e Nando Pradho como Chris (o ator está atualmente no elenco de Les Miserábles e é um dos melhores Javer que eu já assisti. Se ainda não foi ver ao espetáculo, corra que está nas últimas semanas!). Adoraria uma nova adaptação, mas acho impossível uma tão cedo. Resta saber agora quando o filme de Miss Saigon realmente vai sair. Mackintosh diz em entrevistas que será "o mais rápido que possível" e que tudo dependia também do sucesso do filme de Os Miseráveis (que foi um ótimo sucesso de bilheteria). E claramente que não ia deixar vocês sem um gosto do musical. Eu queria postar a minha música favorita, Sun and Moon, mas infelizmente a cena não está disponível na versão do musical do West End deste revival. Seguimos então com uma das músicas que tornou Miss Saigon um ícone: Last Night Of the World (pule para 1:15 para ir direto para a canção ou assista um pouco dos bastidores do musical).



Nenhum comentário: